“Triturador” de primeiros-ministros, Brexit já ‘despejou’ seis líderes do nº10 de Downing Street
Dez anos (menos um dia) separaram o referendo ao Brexit e a demissão de Starmer. Veja como o 'divórcio' com a UE levou (de forma mais ou menos direta) às quedas de vários primeiros-ministros.
“Os governos não se aguentam, o Brexit é um triturador de primeiros-ministros“, disse ao ECO João Moreira Rato, presidente do Instituto Português de Corporate Governance (IPCG), meros dias antes da previsível demissão de Keir Starmer, que acabou por ser confirmada esta segunda-feira.
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Desde o referendo ao Brexit que resultou na vitória do Leave há precisamente uma década, 10 Downing Street já viu a demissão de seis primeiros-ministros. Para Moreira Rato, “o eleitorado continua muito ambivalente, os britânicos exigem reformas de fundo, mas não querem essas reformas” e hoje “há um quadro político de cinco ou seis partidos, quando o sistema ainda está preparado para somente dois, uma situação que cria instabilidade e enorme fragmentação“.
“Tudo o que se está a ver ainda são, de alguma forma, consequências do Brexit, que ainda se estão a desenvolver”, diz o financeiro, que passou 12 anos na banca em Londres, entre 2000 e 2012, e mais precisamente na banca de investimento, em várias instituições, incluindo o Goldman Sachs, o Lehman Brothers e o Morgan Stanley.
Moreira Rato diz que ainda não vimos o impacto total do Brexit, nem em termos económicos, nem políticos. “Porquê? Porque são efeitos de escala e que acontecem muito devagar”, conclui.
Veja como o Brexit afetou seis primeiros-ministros numa década.
David Cameron (Conservador), 2010-2016 (seis anos e dois meses):

Armado com uma maioria absoluta ganha em 2015 (e a primeira dos Conservadores desde 1992 e depois de ter cumprido em coligação com os Liberal Democrats um mandato ganho em 2010), David Cameron apostou forte e em fevereiro de 2016 marcou um referendo à saída britânica da União Europeia, cumprindo uma promessa que já tinha feito em 2013.
Os objetivos incluíam encurtar divergências dentro do seu próprio partido, limitar a ascensão do UK Independence Party de Nigel Farage e obter mais poder para negociar em Bruxelas. O racional era simples, Cameron acreditava plenamente na vitória do Remain. Mas o referendo de 23 de junho deu 52% ao Leave e o primeiro-ministro não demorou a demitir-se, a primeira e principal vítima política do Brexit.
Logo no dia a seguir ao referendo, Cameron falou em Downing Street. “Não escondi nada, fui absolutamente claro quanto à minha convicção de que a Grã-Bretanha é mais forte, mais segura e está em melhor situação dentro da União Europeia, e deixei bem claro que o referendo se prendia com isto e apenas com isto — não com o futuro de nenhum político em particular, incluindo eu própria”, explicou.
Com a autoridade enfraquecida porque tinha associado pessoalmente a liderança à vitória no referendo, a derrota tornou a sua posição politicamente insustentável.
“Mas o povo britânico tomou uma decisão muito clara de seguir um caminho diferente e, como tal, penso que o país necessita de uma nova liderança para o conduzir nessa direção”, acrescentou.
Theresa May (Conservadora), 2016-2019 (três anos):

O resultado do referendo e a saída de Caumeron deixaram os Conservadores numa situação, no mínimo, difícil, mas Theresa May foi a clara vencedora na corrida à sucessão, facilmente derrotando cinco outros candidatos. Vista como uma candidata competente – esteve seis anos como Home Secretary – e que poderia unir um partido fragmentado, foi eleita líder dos Conservadores e nomeada primeira-ministra – tornando-se apenas na segunda mulher no cargo, a primeira tinha sido a ‘dama de ferro’ Margaret Thatcher – a 13 de julho.
A história oficial dos governos do Reino Unido reconhece que o Brexit tornou-se rapidamente a questão determinante do seu mandato. Foi May que invocou o artigo 50.º em março de 2017 para dar início ao processo formal de saída e convocou eleições antecipadas para 8 de junho, com o objetivo de capitalizar nas sondagens favoráveis e fortalecer a sua mão nas negociações para o Brexit. Mas a jogada não resultou – os Conservadores ganharam as eleições, mas perderam a maioria absoluta e foram obrigados a governar através de um acordo com o Democratic Unionist Party (Partido Unionista Democrático) da Irlanda do Norte.
May negociou o acordo de saída do Reino Unido, mas os deputados rejeitaram-no por três vezes, e o facto de esse acordo não ter sido aprovado minou a sua autoridade. Acabou por anunciar a demissão em maio de 2019, depois de várias tentativas de compromisso, incluindo a proposta de submeter a votação dos deputados a um segundo referendo, e de notícias de que ministros de topo e membros do partido se viraram contra a líder por não ter conseguido concretizar o Brexit.
Boris Johnson (Conservador), 2019-2022 (três anos e um mês)

O polémico ex-jornalista e ex-mayor de Londres foi uma das principais das figuras da campanha do Leave e portanto um dos tories proeminentes pró-Brexit. Enfrentou nove concorrentes à liderança, mas foi sempre o favorito e foi nomeado primeiro-ministro a 24 de julho de 2019.
Johnson convocou eleições antecipadas para dezembro desse ano – tal como May para ter mais poder para quebrar o impasse sobre o Brexit no Parlamento, com o slogan de campanha ‘Concluir o Brexit’ – e conseguiu devolver a maioria absoluta aos Conservadores, obtendo 365 dos 650 lugares na House of Commons.
Foi no mandato de Johnson que o Reino Unido formalmente deixou a União Europeia, a 31 de janeiro de 2020. O período de Johnson no poder acabou por ser marcado por polémicas como o Partygate – relacionado com festas e outros encontros realizados no n.º 10 de Downing Street e nas suas imediações, bem como noutros edifícios governamentais, durante os confinamentos devido à pandemia de Covid-19. Depois de vários dos seus ministros se terem demitido, Johnson anunciou a saída a 7 de julho de 2022.
Embora o Brexit não tenha sido a causa direta da queda, a questão nunca parece ter estado longe dos seus pensamentos. Em junho de 2023, quando deixou o lugar de deputado após a investigação sobre o Partygate ter concluído que induziu o Parlamento em erro e recomendou uma suspensão prolongada da Câmara dos Comuns, o antigo primeiro-ministro acusou, com indignação, a investigação de tentar afastá-lo e afirmou que estava em curso uma “caça às bruxas, para se vingar do Brexit e, em última análise, para reverter o resultado do referendo de 2016”.
Liz Truss (Conservadora), 2022 (44 dias)
O mandato mais curto de sempre. Truss derrotou Rishi Sunak, que tinha sido Chancellor of the Exchequer (ministro das Finanças) de Boris Johnson e chegou a poder ao 6 de setembro de 2022.
No seu curto período no poder, o Brexit foi importante porque Truss tentou fazer do seu mandato como primeira-ministra um teste às “liberdades” que a saída da UE forneceu, especialmente através de reduções fiscais e desregulamentação, mas essa abordagem colidiu com a realidade do mercado e revelou o quanto a política do Brexit continuava a ser fonte de divisão.
Na prática a principal razão da queda rápida foi a quebra de confiança depois de o seu mini-orçamento ter provocado turbulência nos mercados, com os investidores a não acreditarem nas promessas de crescimento acelerado pós-Brexit, uma situação que forçou reviravoltas nas políticas e dividido ainda mais o seu partido.
Os 44 dias no poder ficaram marcados também pela ‘piada da alface’ uma brincadeira que se tornou viral sobre se duraria mais tempo como primeira-ministra do que uma alface iceberg de supermercado. Um tabloide organizou uma transmissão em direto com uma alface ao lado de uma fotografia de Truss e, quando ela se demitiu primeiro, a alface ‘ganhou’.
Rishi Sunak (Conservador), 2022-2024 (um ano e oito meses)

A demissão de Rishi Sunak acelerou a queda do governo de Johnson, pois o ministro afirmou que perdera a confiança no líder e na forma como o país estava a ser governado, de forma pouco séria.
Sunak perdeu a corrida à sucessão para Truss, mas menos de dois meses a seguir conquistou a liderança sem grande oposição. A equipa do novo primeiro-ministro apostou nos “dividendos do Brexit”, como a liberdade regulatória e uma abordagem mais flexível em relação a certas normas derivadas da UE, mas os ganhos foram limitados e politicamente contestados.
O ‘divórcio’ com a União Europeia continuou a pesar sobre o crescimento, o comércio e a política da Irlanda do Norte, pelo que o seu mandato consistiu menos em celebrar o Brexit e mais em tentar fazer com que o acordo pós-Brexit funcionasse.
O Brexit não foi o fator direto que levou à demissão de Sunak – saiu depois de o Partido Trabalhista ter derrotado os Conservadores de forma esmagadora nas eleições gerais de 2024 – mas fez parte de um contexto político mais alargado: o historial dos Conservadores incluía anos de turbulência em torno do Brexit, e os esforços de Sunak para normalizar as relações com a UE foram suficientes para afastar alguns eleitores pró-Brexit e contribuir para a diminuição do apoio aos Conservadores.
Keir Starmer (Trabalhista), 2024-2026 (um ano e 11 meses)

Após 14 anos de governos Conservadores, Keir Starmer levou o Labour ao poder com um claríssima vitória nas eleições de julho de 2024, obtendo 412 assentos no Parlamento.
O Brexit deixou a Starmer pouca margem de manobra: podia argumentar que o país precisava de ultrapassar o caos dos anos do Brexit dos conservadores, mas não podia reverter a saída da União, fazendo depender a sua autoridade da demonstração de melhorias económicas e melhores relações com a Europa, sem reabrir a controvérsia em torno do referendo.
Na análise imediata à demissão, a BBC sublinhou a queda nos índices de aprovação, as pesadas derrotas do Partido Trabalhista nas eleições locais e regionais e a crescente perda de confiança no seio do partido, apontando também para a indignação face às reviravoltas políticas e críticas ao seu discernimento em nomeações como a de Peter Mandelson como embaixador nos EUA, apesar da amizade deste com Jeffrey Epstein.
O Brexit não foi um ‘gatilho’ direto para a queda de Starmer, mas fez parte da pressão económica e política mais ampla que esteve na origem da sua queda, com impacto no crescimento a tornar mais difícil a condução da agenda interna.
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