Alan Greenspan: o músico de jazz que se tornou o Maestro da Fed
O mais marcante banqueiro central do mundo morreu esta segunda-feira, 22 de junho de 2026, e a sua vida dava vários filmes.
Alan Greenspan viveu 100 anos e o seu percurso de vida confunde-se com um século de história, na vertente económica mas não só.
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Nascido em Nova Iorque no seio de uma família judaica (o ramo do pai, de origem romena, e o da mãe, de origem húngara), o pequeno Alan recebia uma mesada de 25 cêntimos por semana. À saída da grande depressão, foi esta a primeira experiência dele com dinheiro e a sua gestão. Em casa, a sombra do pai era grande e influenciou o caminho do filho: Herbert Greenspan era corretor de bolsa e analista financeiro.
Os primeiros anos do jovem Alan foram relativamente despreocupados e marcados por um gosto que o acompanhou toda a vida, a música, sobretudo clássica e jazz. Enquanto jovem, tocava clarinete e saxofone e chegou a pensar ser músico, o que o levou à prestigiada escola Julliard, em Nova Iorque, e inclusivamente a participar em digressões.
Acabou por derivar para a economia, área na qual se distinguiu pelas boas notas e pelo afinco no estudo de diferentes correntes de pensamento, ainda que tenha sido sempre um acérrimo defensor do capitalismo como a melhor via para a prosperidade. Teve vários empregos enquanto ainda estudava e depois, mas o período mais longo, de perto de três décadas, foi na consultora Townsend-Greenspan, que fechou quando, em 1987, ele foi nomeado para liderar a Reserva Federal.
Antes disso, teve várias ligações a funções públicas. Entre 1974 e 1977 presidiu ao comité de conselheiros económicos do Presidente Gerald Ford e, entre 1981 e 1983, liderou a comissão nacional para a reforma da segurança social dos Estados Unidos.
Sucedeu a Paul Volcker em 1987, indicado pelo Presidente Ronald Reagan e, apenas 69 dias depois, Wall Street viveu a segunda-feira negra, com o Dow Jones a perder 22% do seu valor num só dia, a maior queda alguma vez registada. Foi um duro teste para um novato naquelas funções, mas Greenspan levou a Fed a reagir de forma decidida, abrindo linhas de liquidez de forma a permitir que a falta de confiança não fizesse secar o crédito, nomeadamente às firmas de investimento.
Greenspan sabe bem o peso que as suas palavras podem ter, pelo que foi breve nas suas declarações, alegadamente para reduzir o espaço para interpretações erróneas: “A Reserva Federal, de forma consistente com as suas responsabilidades enquanto o banco central da nação, afirmou hoje a sua prontidão para servir como fonte de liquidez para suportar os sistemas económico e financeiro”.
Mais tarde, Greenspan viria a aprimorar a chamada “Greenspeak”, que ele desenvolveu como ferramenta de, na prática, esconder o jogo até entender que era o momento de o mostrar. Ao contrário de outros banqueiros centrais que defendem que o ideal é a total previsibilidade sobre o que estes bancos vão fazer, Greenspan preferia não dar demasiada visibilidade às suas ideias para o futuro.
Ficou conhecido por, mais tarde, responder com longas e complicadas frases, com várias ideias até aparentemente contraditórias dentro delas. E este registo não era involuntário ou por falta de capacidade de comunicação, era uma arma que ele sabia como usar.
Numa entrevista dada em 2007, à CNBC, explicou o seu estilo: “É uma linguagem propositadamente confusa para evitar que surjam certas questões, que tu sabes que não podes responder, em vez de teres de dizer ‘não posso responder’ ou ‘não faço comentários’, que na verdade são respostas”.
“Se um congressista, por exemplo, te faz uma pergunta e não queres dizer ‘sem comentários’, eu avanço com quatro ou cinco frases que vão ficando progressivamente mais obscuras. O congressista pensa que eu respondi à pergunta e passa à seguinte”, acrescentou.
Esse primeiro embate com a realidade, em 1987, correu bem a Greenspan, que foi ganhando fama e reforçando o poder, sobretudo de influência, da própria Fed. Pouco tempo depois nasceu a expressão “O Maestro”, pela forma como parecia conseguir conduzir a economia e os mercados consoante a sua vontade. Dizia-se que, depois do próprio Presidente, era o homem mais poderoso dos Estados Unidos e, consequentemente, um dos mais poderosos de todo o mundo.
O poder da sua palavra ficou bem visível quando, em 1996, usou a expressão “exuberância irracional” acerca do preço dos ativos, naquilo que foi interpretado como um aviso sobre a sobreavaliação e uma potencial bolha. Apesar de alguma correção temporária, os mercados continuaram a escalar até às quedas do período dotcom, na viragem do século.
Foi sendo reconduzido no cargo e serviu quatro presidentes, três republicanos e um democrata: Reagan, Bush “pai”, Bill Clinton e Bush “filho”. Apesar de ser visto como próximo do Partido Republicano, acabou por conseguir manter alguma independência.
Entre 1987 e 2006, à frente da Fed, lidou com duas recessões e várias crises financeiras. Os seus defensores apontam o longo período de expansão económica que marcou os seus mandatos, enquanto os seus detratores focam no seu alegado facilitismo liberal, permitindo a desregulação dos mercados financeiros e preferindo manter as taxas de juro baixas, como forma de sustentar a economia. Esta política, segundo muitos, acabou por facilitar a formação de bolhas, tanto nos mercados financeiros como no segmento do crédito imobiliário.
Tal como Greenspan “herdou” as sementes de um crash do seu antecessor, também Ben Bernanke teve um acordar violento logo nos seus primeiros anos de mandato: a bolha no mercado imobiliário e sua ligação a produtos de investimento exóticos rebentou em 2007 e levou a economia norte-americana a uma contração de mais de 4%, algo não visto desde a Segunda Guerra Mundial. Todo o mundo foi contagiado e pagou a sua parte da fatura.
Aquando dos ataques de 11 de setembro de 2001, respondeu à crise de confiança com uma série de agressivos cortes nas taxas de juro, levando esse nível de perto de 6% para perto de 1%, o valor mais baixo em mais de 40 anos. O corte agressivo de juros até ganhou um nome, “Greenspan Put”, e parecia ser a resposta para qualquer crise, e na verdade funcionou muita vez.
Os mercados e a economia responderam de forma exuberante mas Greenspan manteve as taxas baixas, só começando o movimento de real inversão em 2004. Para muitos observadores, isso foi demasiado tarde, não permitiu combater o sobreaquecimento da economia e levou ao rebentar da bolha do subprime.
70% das minhas decisões estavam certas; o restante 30% contribuiu para a crise financeira.
O seu papel nessa crise foi a grande ameaça à imagem do Maestro infalível. Anos mais tarde, Greenspan veio defender-se e tentar proteger o seu legado. “70% das minhas decisões estavam certas; o restante 30% contribuiu para a crise financeira”, disse, ainda que tenha afirmado que foi avisando para alguns excessos nos mercados imobiliário e de crédito.
Porém, pelo menos nos primeiros tempos de formação dessa bolha, o banqueiro acreditava que o crédito fácil era essencial para tornar mais americanos donos da sua própria casa, e que os benefícios que tal traria justificariam correr alguns riscos.
Perante um comité do Senado, admitiu um “ângulo morto” que lhe escapou, e que veio a revelar-se destruidor. “Aqueles entre nós – eu próprio incluído – que valorizavam o interesse próprio das instituições de crédito em proteger o valor dos seus acionistas estão num estado de incredulidade chocada”.
Greenspan, desde sempre um crente na força e na eficiência dos mercados em autoregular-se, não esperava que o sistema desse cabo de si próprio, devido à busca de ganhos de curto prazo mesmo que isso trouxesse um tsunami de perdas lá mais para a frente.
“O Maestro”, o “Senhor Dólar”, o “Senhor Fed”, Alan Greenspan foi o segundo presidente da Reserva Federal que mais tempo esteve à frente da instituição. Ficou a apenas quatro meses da longevidade de William McChesney Martin, que chefiou a entidade entre 1951 e 1970.
Em janeiro deste ano, foi um dos subscritores de uma carta que apoiava Jerome Powell, então presidente da Fed, depois de a Casa Branca ter ordenado uma investigação ao banqueiro, visto como uma forma de pressão de Donald Trump para limitar a independência da Reserva Federal.
O banqueiro, o amante do jazz e o homem que, desde um acidente sofrido em 1971 escrevia todas as suas intervenções na banheira, morreu agora aos 100 anos.
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