Do caos à euforia em segundos nas bolsas com o aval de Trump
Um anúncio inesperado de Donald Trump sobre uma trégua com o Irão chegou para virar os mercados de pernas para o ar, com o petróleo a afundar mais de 14% e as bolsas a recuperarem com vigor.
- Donald Trump anunciou a suspensão de ataques militares ao Irão, provocando uma queda significativa nos preços do petróleo e gás natural.
- O Brent caiu mais de 14% e o gás natural europeu inverteu sua trajetória, refletindo a incerteza nos mercados energéticos após semanas de tensão.
- Apesar do alívio momentâneo, a situação permanece frágil, com o Irão mantendo ameaças e a possibilidade de escalada de conflitos ainda presente.
Há quatro semanas que os mercados financeiros vivem em sobressalto permanente. Desde que os EUA e Israel lançaram uma ofensiva militar contra o Irão, a 28 de fevereiro, o petróleo disparou, a inflação global voltou a entrar nos radares dos investidores e as bolsas mundiais mergulharam num turbilhão de incerteza.
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Esta segunda-feira, porém, o mesmo homem que tem alimentado essa tensão decidiu puxar do travão: Donald Trump anunciou na sua rede Truth Social que ordenou ao Departamento de Guerra que suspendesse todos os ataques militares a centrais elétricas e infraestruturas energéticas iranianas durante cinco dias, na sequência de conversações “muito boas e produtivas” com Teerão sobre uma “resolução completa e total das hostilidades” no Médio Oriente.
A reação dos mercados foi imediata e, desta vez, em sentido contrário. O Brent, referência internacional para o preço do petróleo na Europa, chegou a cair mais de 14%, tocando os 96 dólares por barril, após ter estado a subir 2% até aos 114 dólares no início da sessão. O petróleo WTI (West Texas Intermediate), a referência norte-americana, afundou mais de 13%, para mínimos de 85 dólares por barril.

O gás natural (GNL) europeu também inverteu radicalmente o rumo. Após ter começado o dia a subir 6,6%, alimentado pelos receios de uma escalada militar, o GNL chegou a cair 9,3%, à medida que a perspetiva de desescalada aliviou a pressão sobre os mercados de energia com o anúncio de conversações entre os EUA e o Irão revelado por Donald Trump.
A cautela, porém, continua justificada: a maior instalação de gás natural liquefeito (GNL) do mundo, no Catar, permanece encerrada após os ataques iranianos da semana passada, que danificaram cerca de 17% da capacidade de exportação do país, com as reparações a poderem demorar até cinco anos, segundo estimativas de mercado.
Nas bolsas europeias, o dia começou pintado de vermelho, com o pan-europeu Stoxx Europe 600 a negociar até às 11 horas em terreno negativo, chegando inclusive a cair 2,5%. Porém, após o anúncio do presidente dos EUA, esse índice pan-europeu disparou de rompante 4,5% face ao mínimo do dia, para ganhos diários de quase 1,9% – encontra-se atualmente a negociar com uma valorização de 0,73%.
O movimento foi transversal aos principais índices acionistas europeus. Foi isso que também se passou com o português PSI, se bem com um impacto mais moderando. Esteve perder 2% até perto das 11 horas, para disparar 2,7% nessa altura, colocando o índice a negociar com ganhos de 0,5% – atualmente está praticamente na linha de água.
O anúncio de Trump veio alterar este cenário, trazendo de volta o apetite pelo risco a investidores que, nas últimas semanas, tinham adotado uma postura defensiva perante a sucessão de ameaças cruzadas entre Washington e Teerão.
O alívio nos mercados não apaga a fragilidade da situação, com Donald Trump a notar que a suspensão dos ataques está “sujeita ao sucesso das reuniões e negociações em curso” ao longo da semana.
Do outro lado do Atlântico, os futuros sobre os principais índices de Wall Street dispararam em flecha após o “post” de Donald Trumo na Social Truth. Os futuros do Dow Jones saltaram mais de 1.130 pontos, equivalente a uma valorização de 2,5%, enquanto os futuros do S&P 500 avançaram 2,3% e os do Nasdaq-100 subiram 2,2%.
Antes do anúncio do presidente dos EUA, os três principais índices estavam encostados à parede, com os contratos de futuros dos três índices a negociarem em terreno negativo, apontando para uma abertura de Wall Street no vermelho. Atualmente, os futuros sobre o S&P 500 e o Nasdaq negoceiam com uma subida de 1,4% e o Dow de 1,5%.
No mercado obrigacionista, a yield da dívida pública norte-americana a 10 anos caiu quatro pontos base, para 4,352%, revertendo parte da subida da sessão anterior, durante a qual tinha tocado o nível mais elevado desde julho de 2025.
Os investidores tinham estado a precificar um cenário em que a Reserva Federal norte-americana (Fed) poderia ser forçada a subir as taxas de juro para travar a inflação gerada pelo conflito, um cenário diametralmente oposto ao que se esperava há apenas alguns meses. Com a pausa nos ataques e o anúncio de conversações entre os EUA e o Irão, esse risco recuou, e as yields das obrigações a 2 e a 30 anos também negoceiam agora com uma descida coordenada.
O alívio nos mercados não apaga, contudo, a fragilidade da situação, com Donald Trump a notar que a suspensão dos ataques está “sujeita ao sucesso das reuniões e negociações em curso” ao longo da semana. O Irão, por sua vez, mantém as suas ameaças sobre as infraestruturas energéticas do Golfo, incluindo instalações de dessalinização de água potável, caso os EUA não cumpram a palavra dada.
Com mais de 2 mil mortos em quatro semanas de guerra e o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo e do GNL mundiais, ainda sob enorme pressão, os investidores sabem que esta janela de alívio pode ser tão fugaz como as que a precederam.
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