Stellantis e o desafio da eletrificação em Portugal

  • ECO
  • 7 Maio 2026

Pedro Lazarino, diretor da Stellantis Portugal é o convidado do décimo terceiro episódio da nova temporada do podcast Eco Auto, parceria entre o Eco e o Mundo Automóvel.

Pedo Lazarino, licenciado em economia e gestão, mestrado em marketing e programa de liderança na Harvard Business School, tem uma longa experiência na indústria automóvel com funções de liderança na Opel e na Stellantis na Península Ibérica, desde 2024 managing Director da Stellantis em Portugal.

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Com uma visão pragmática, Pedro Lazarino explora neste episódio Eco Auto, os desafios reais da transição energética no terreno, a dependência do mercado empresarial, preço como principal barreira e infraestruturas ainda insuficientes, a pressão da concorrência chinesa e o papel estratégico da fábrica de Mangualde, num retrato direto de um setor automóvel em transformação profunda e sob crescente pressão regulatória, económica e tecnológica.

Com um portefólio de 14 marcas e uma posição de liderança consolidada no mercado nacional, a Stellantis enfrenta hoje um dos maiores desafios da sua história: gerir a complexidade interna enquanto responde a uma transição energética ditada por metas europeias exigentes.

A gestão de múltiplas marcas é para Pedro Lazarino, simultaneamente a maior força e o maior desafio do grupo. A estratégia passa por combinar eficiência industrial, através de plataformas comuns, com a preservação do ADN de cada marca e explica cada marca tem o seu posicionamento, o seu cliente e a sua identidade. O nosso papel é garantir que se complementam, e não que se canibalizam e que o equilíbrio entre escala e diferenciação tem permitido à Stellantis liderar o mercado português, tanto em veículos de passageiros como comerciais, com destaque para o desempenho consistente da Peugeot, que mantém uma posição dominante há vários anos.

Pedro Lazarino, diretor da Stellantis Portugal é o convidado do décimo terceiro episódio da nova temporada do podcast Eco Auto, parceria entre o Eco e o Mundo Automóvel

A transição para a mobilidade elétrica é um tema central na conversa com Pedro Lazarino que considera que existe um desfasamento entre a ambição política e a realidade do mercado.

A Comissão Europeia definiu um caminho de eletrificação acelerada para o setor automóvel, com metas rígidas de redução de emissões. No entanto alerta que o ritmo de adoção está longe do necessário em vários mercados europeus. Não estamos a caminhar ao ritmo necessário para cumprir as metas e as penalizações para os construtores são muito significativas.

Portugal surge como uma exceção positiva, com cerca de 20% das vendas já em veículos 100% elétricos. Para o lider da Stellantis em Portugal esta performance esconde uma realidade mais complexa com a adoção de veículos elétricos no nosso mercado estar concentrada em grande parte nas empresas, impulsionada por incentivos fiscais e pela cultura do carro de serviço mas reconhece que o cliente particular ainda tem muita dificuldade em chegar ao elétrico e confirma que o principal obstáculo é o preço, a diferença face a veículos de combustão pode ultrapassar os 10 mil euros, um valor difícil de absorver para a maioria dos consumidores a que se juntam limitações práticas, como a falta de infraestrutura de carregamento e as dificuldades de utilização para quem não dispõe de soluções domésticas.

Apesar dos avanços, Pedro Lazarino considera que Portugal continua a enfrentar desafios estruturais na mobilidade elétrica. A infraestrutura de carregamento, embora superior à de alguns mercados europeus, é ainda insuficiente para uma massificação sustentável. Além disso, o custo de utilização pode tornar-se pouco competitivo quando dependente exclusivamente de carregamento público. O modelo elétrico funciona bem quando há carregamento em casa, sublinha.

Sobre a concorrência global, Pedro Lazarino admite que a crescente presença de fabricantes chineses no mercado europeu, particularmente no segmento elétrico, é um tema crítico. A Stellantis optou por uma abordagem pragmática, estabelecendo uma parceria com a Leapmotor para comercialização de veículos fora da China, decisão que reflete uma realidade incontornável: a China detém uma vantagem significativa na tecnologia de baterias e na produção de veículos elétricos. Apesar disso, levanta dúvidas sobre a equidade competitiva e considera que a concorrência não é totalmente equilibrada, mas é uma realidade que nos obriga a ser melhores, destacando que as marcas europeias continuam a beneficiar de um ativo essencial: a confiança dos clientes.

A propósito da importância da fábrica da Stellantis em Mangualde para a economia nacional confirma que assume um papel central na estratégia do grupo. Com cerca de 900 empregos diretos e uma produção anual próxima das 90 mil unidades, a unidade representa uma parte significativa da indústria automóvel portuguesa e a recente transição para a produção de veículos comerciais elétricos reforça a sua relevância, sublinhando que a eletrificação de Mangualde é a maior garantia de futuro para a fábrica. Além da produção, a aposta em soluções de transformação industrial, adaptadas às necessidades específicas dos clientes, poderá aumentar a competitividade da operação.

Para Pedro Lazarino, o debate sobre a mobilidade elétrica não pode ser desligado da realidade económica e social. A mobilidade individual é fundamental para a liberdade e para a democracia, sublinhando que a transição energética deve ser feita de forma equilibrada.

O envelhecimento do parque automóvel em Portugal, com uma média superior a 14 anos, é um sinal claro das dificuldades de acesso a veículos novos. Neste contexto, defende medidas como programas de abate de veículos antigos, que possam acelerar a renovação do parque e contribuir para a descarbonização de forma mais eficaz.

Nesta conversa Pedro Lazarino deixa uma conclusão clara o futuro da mobilidade está definido, mas a sua execução está longe de ser linear. Entre metas europeias ambiciosas, limitações económicas, pressão competitiva global e desafios estruturais, o setor automóvel enfrenta uma das fases mais complexas da sua história. A Stellantis, pela sua escala e diversidade, posiciona-se como um dos principais protagonistas dessa transformação mas Pedro Lazarino sublinha que o sucesso dependerá de um fator essencial: alinhar inovação, regulação e acessibilidade. Porque, a transição só será real quando for possível para todos.

O Podcast ECO Auto resulta de uma parceria com o Mundo Automóvel e está disponível no Spotify e na Apple Podcasts.

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