Saída dos Emirados na OPEP ameaça futuro do cartel. Vai ser mais difícil “mandar” no petróleo

Terceiro maior produtor da OPEP vai abandonar o cartel, ao fim de quase seis décadas. Quer aumentar produção dos 3,6 milhões que produzia antes da guerra para cinco milhões de barris diários até 2027.

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  • Os Emirados Árabes Unidos anunciaram a sua saída da OPEP, um movimento que pode alterar significativamente a dinâmica do mercado petrolífero global.
  • Antes do conflito no Irão, os Emirados representavam cerca de 12% da produção da OPEP, que já enfrenta desafios devido à crescente produção dos EUA.
  • A saída dos Emirados pode incentivar outros países a priorizar a quota de mercado, ameaçando a capacidade da OPEP de regular os preços do petróleo.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Os Emirados Árabes Unidos aproveitaram o contexto de guerra, que fechou o Estreito de Ormuz e mantém bloqueado o fornecimento equivalente a cerca de 20% do petróleo consumido diariamente a nível global, para lançar uma nova bomba: Vão abandonar Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) já esta sexta-feira, dia 1 de maio. Trata-se de um importante revés na estratégia do cartel, que já chegou a ter nas mãos metade da produção de petróleo do mundo, e, sem os Emirados, irá controlar menos de 30%. Uma quota que deixa o grupo, que tem vindo a perder relevância devido à maior produção dos EUA, com menos capacidade para “mandar” nos preços da matéria-prima e pode até ameaçar o futuro do grupo, caso outros membros sigam o exemplo do país.

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A saída dos Emirados, que antes do início do conflito representava perto de 12% da produção do cartel, chocou o mercado, que enfrenta graves problemas devido à guerra no Irão. Contudo, o ministro da energia, Suhail Al Mazrouei, justificou que o país do Golfo decidiu avançar com esta decisão neste momento, precisamente para não abalar a estabilidade dos preços da matéria-prima, uma vez que a prioridade continua a ser a libertação da produção que chega através de Ormuz.

Os preços do petróleo chegaram a subir perto de 3%, a reagir à ausência de um acordo para terminar o conflito no Médio Oriente, mas a matéria-prima abrandou os ganhos, mantendo-se acima dos 111 dólares por barril, perante a expectativa de uma maior oferta no mercado, devido a uma maior produção dos Emirados.

A curto e médio prazo, o mercado deverá conseguir absorver facilmente barris adicionais dos Emirados, tendo em conta os stocks globais reduzidos e a necessidade de reconstruir reservas”, concorda Ole Hansen. No entanto, a longo prazo, “a saída levanta uma questão estratégica mais ampla: se outros produtores começarem a dar prioridade à quota de mercado em detrimento da disciplina de quotas, a capacidade da OPEP para gerir mercados de forma ordenada através de ajustamentos coordenados da oferta poderá ser cada vez mais posta em causa”, avisa o analista do Saxo Bank, em comentários enviados ao ECO.

A saída [dos Emirados] levanta uma questão estratégica mais ampla: se outros produtores começarem a dar prioridade à quota de mercado em detrimento da disciplina de quotas, a capacidade da OPEP para gerir mercados de forma ordenada através de ajustamentos coordenados da oferta poderá ser cada vez mais posta em causa.

Ole Hansen

Analista do Saxo Bank

Jan von Gerich, analista-chefe de mercados na Nordea, destaca que os Emirados “querem produzir mais petróleo, pelo que a decisão deverá ser negativa para os preços do petróleo“. “Quando o conflito com o Irão terminar, a OPEP não conseguirá controlar os preços da mesma forma que no passado“, acrescenta.

Os analistas apontam ainda o risco de outros países seguirem o exemplo dos Emirados, o que poderia deixar o cartel numa situação ainda mais difícil, ou até mesmo em risco de dissolução. Apesar de os analistas concordarem que esta saída vai influenciar o futuro da OPEP,

“Embora alguns possam ser tentados a ver esta decisão como o início do fim do grupo de produtores, a sua história sugere o contrário”, lembra Harry Tchilinguirian. O analista da Onyx Capital Group realça que “países como a Indonésia, o Qatar e Angola têm entrado e saído ao longo do tempo. Embora os Emirados Árabes Unidos sejam um membro importante, tanto a OPEP como a OPEP+ deverão continuar a prosseguir o mandato definido pelos seus países membros”.

A Angola saiu no final de 2023, depois de a sua produção ter diminuído e de os líderes do grupo terem procurado impor uma quota de produção mais reduzida. Já o Equador saiu em 2020, à medida que a sua produção caiu, enquanto em 2018, o Qatar abandonou a organização para se concentrar no desenvolvimento do setor de gás natural.

Quando o conflito com o Irão terminar, a OPEP não conseguirá controlar os preços da mesma forma que no passado.

Jan von Gerich

Analista da Nordea

Quando nasceu, em 1960, pela mão de cinco países — Arábia Saudita, Irão, Iraque, Koweit e Venezuela — , a OPEP tinha como objetivo “coordenar e unificar as políticas petrolíferas dos países-membros e assegurar a estabilização dos mercados petrolíferos“. Um corte de produção decidido pelo grupo, que controla cerca de 80% das reservas de crude existentes, era suficiente para fazer os preços disparar. Apesar de não fazer parte do grupo inicial, os Emirados juntaram-se ao cartel apenas sete anos depois da sua criação, em 1967, assumindo um papel relevante na definição da estratégia da OPEP ao longo destes quase 60 anos.

Ao longo de décadas, o cartel mandou no mercado e definiu as cotações do ouro negro em função dos seus interesses. A chegada do “shale oil”, petróleo extraído das rochas de xisto betuminoso, marcou uma nova era no mercado, fazendo as produtoras norte-americanas ganhar um lugar no mercado.

A crescente concorrência dos EUA e a pandemia, que acelerou um travão na procura, levaram a organização e os seus aliados (OPEP+) a avançar com uma política de cortes voluntários de produção. Ao fim de anos de reduções, são muitos os membros do cartel que manifestam o seu desagrado, uma vez que os seus orçamentos dependem das receitas petrolíferas. Foi o que aconteceu com os Emirados, que prevê reforçar a produção até aos cinco milhões de barris diários, em 2027.

Antes de cair no mês passado para 2,2 milhões de barris por dia, a produção dos Emirados tinha aumentado gradualmente até cerca de 3,6 milhões de milhões de barris diários, enquanto a sua capacidade declarada de produção de crude se situa atualmente em 4,85 milhões de milhões de barris por dia, com uma meta oficial de cinco milhões de barris por dia até 2027, através de investimento contínuo no upstream”, explica Ole Hansen.

Segundo o analista do Saxo, “vários produtores do Golfo poderão ter dificuldades durante algum tempo em restaurar a produção para níveis anteriores à guerra, devido a danos na infraestrutura, estrangulamentos logísticos e ao tempo necessário para normalizar as exportações” Por outro lado, “a forte procura para reconstruir os stocks comerciais esgotados e reabastecer as reservas estratégicas deverá sustentar a procura de crude muito para além do fim do conflito“.

“Os Emirados Árabes Unidos aproveitaram a oportunidade para sair da OPEP, eliminando o constrangimento das quotas de produção que durante anos frustraram o país rico em petróleo e limitaram a sua capacidade de utilizar plenamente uma capacidade de produção em expansão constante”, remata Ole Hansen, ao ECO.

Margem para ganhar quota

Com uma quota entre 3% e 4% na produção de petróleo global, os Emirados Árabes Unidos poderão reforçar o seu peso no fornecimento. Mantendo uma posição conciliadora com os outros produtores da região, o país realçou que esta é uma decisão de política e foi tomada após uma perspetiva cautelosa sobre as políticas atuais e futuras, relacionadas com a produção”.

Os Emirados têm aliás vindo a reforçar as suas relações internacionais, nomeadamente com os EUA. A saída do cartel tem sido, aliás, lida pelos analistas como uma vitória para Trump, que criticou ao longo dos últimos anos o poder da organização na imposição de preços elevados no mercado petrolífero.

Certo é que a capacidade do grupo de 12 — em breve 11 — “mandar” no petróleo está a enfraquecer, depois de esta saída de peso e de já ter visto outros países abandonar a organização nos últimos anos.

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