O segredo da riqueza é investir durante décadas e não dias, revela Larry Fink
A elite concentra a riqueza e o sistema está feito para a proteger, diz o CEO da Blackrock. A solução passa por abrir os mercados financeiros a muito mais pessoas, defende o gestor.
O CEO da maior gestora de ativos do mundo defende que os mercados de capitais são a única ferramenta capaz de ligar o destino financeiro dos cidadãos ao crescimento das suas nações. Mas, para isso, argumenta, é preciso que muito mais pessoas tenham acesso a esse ciclo e que o façam durante décadas, não dias.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
Na sua carta anual aos investidores, divulgada esta segunda-feira e intitulada “Crescer com o seu país: reflexões de um otimista a longo prazo”, Larry Fink refere que “o capitalismo está a funcionar, só que não está a funcionar para pessoas suficientes”.
Na raiz da ansiedade económica que hoje se sente em quase todo o mundo, escreve o responsável da BlackRock, está precisamente esta perceção de que o sistema gera riqueza, mas concentra-a em cada vez menos mãos, com os 10% mais ricos do planeta a deterem cerca de 75% da riqueza global, enquanto a metade mais pobre fica com apenas 2%.
Os mercados tendem a recompensar quem permanece investido em tempos de incerteza.
A solução que Fink propõe não passa por redistribuição direta, mas por alargar a base de quem participa nos mercados financeiros. “O investimento a longo prazo é o que permite aos países construir indústrias domésticas, que permite às pessoas acumular riqueza duradoura e demonstra como o crescimento do seu país pode beneficiá-las também”, escreve.
Na visão do gestor, quando um cidadão investe as poupanças durante décadas e não apenas em momentos especulativos, os mercados de capitais colocam esse dinheiro a trabalhar no financiamento de empresas, infraestruturas e empregos. O resultado, argumenta, é uma espécie de “milagre cívico”: o futuro do investidor e o futuro do país tornam-se inseparáveis.
Larry Fink recorre à história para sustentar o argumento. As famílias que investiram de forma consistente, atravessando depressões económicas, guerras, períodos de inflação, crises financeiras e até uma pandemia global, tiveram a oportunidade de ver o seu património crescer a par das economias em que viviam.
“Esta história é a razão pela qual continuo otimista a longo prazo. Não porque o caminho seja fácil, mas porque os mercados tendem a recompensar quem permanece investido em tempos de incerteza”, defende.
Não se pode investir quando não se tem a certeza de conseguir pagar a renda do próximo mês ou as compras da próxima semana.
O CEO da BlackRock identifica três forças que tornam esta conversa particularmente urgente agora:
- A primeira é a reorganização global em torno da autossuficiência: Europa a reconstruir a indústria de defesa, mercados emergentes a desenvolver energia doméstica, EUA a tentar reindustrializar-se. Tudo isto exige investimento de longo prazo em volume crescente, e os mercados estão a ser cada vez mais chamados a financiá-lo.
- A segunda força é a desigualdade acumulada nas últimas décadas de capitalismo global: os consumidores beneficiaram de bens mais baratos, mas nos países ricos os ganhos ficaram concentrados.
- A terceira é a inteligência artificial que, avisa Fink, pode agravar ainda mais a desigualdade se os seus benefícios continuarem a fluir apenas para os proprietários dos modelos e dos dados.
O ponto de partida para inverter este cenário, reconhece Fink, é mais básico do que parece: não se pode investir quando não se tem a certeza de conseguir pagar a renda do próximo mês ou as compras da próxima semana.
Por isso, o responsável da BlackRock defende que os governos e o setor financeiro têm de trabalhar primeiro para ajudar as pessoas a construir segurança financeira mínima e só depois conseguirão ampliar a participação nos mercados de capitais.
A carta do presidente da Blackrock cita vários exemplos de países – Canadá, Reino Unido, Singapura – que já estão a expandir esse acesso, ligando cidadãos individuais ao crescimento das suas economias nacionais.
A mensagem de Fink tem uma dimensão política que não pode ser ignorada. O gestor que supervisiona perto de 10 biliões de dólares em ativos não está apenas a fazer um argumento financeiro, mas a propor uma nova narrativa para o capitalismo numa altura em que a desconfiança no sistema é crescente.
Se a tecnologia e os mercados continuarem a criar valor que só flui para uma minoria, escreve, “a brecha apenas se alargará”. A alternativa que defende é transformar mais pessoas em proprietárias do crescimento, em vez de simples espetadores a assistir de fora.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
O segredo da riqueza é investir durante décadas e não dias, revela Larry Fink
{{ noCommentsLabel }}