Europa Ocidental vive mais um dia de calor sem precedentes
No Reino Unido, foram já registados cinco mortos, indicaram as autoridades locais. As autoridades francesas, por sua vez, reportaram esta manhã "sete mortes" ligadas à onda de calor.
De Inglaterra a Itália, partes da Europa viveram esta terça-feira mais um dia de calor excecional para maio, interrompendo as rotinas num continente que está a aquecer mais rapidamente que os outros. O Reino Unido bateu o seu recorde histórico de temperatura para maio, com 35 graus Celsius (ºC) registados em Londres.
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No continente, a Météo-France alertou que vão poder ser localmente atingidas nos próximos dias temperaturas excecionais de “38° ou mesmo 39°” em França, sublinhando como esta onda de calor precoce, de 10ºC a 15ºC acima da média sazonal, é “excecional, histórica e sem precedentes”.
As temperaturas ultrapassaram 30°C durante o fim de semana de Pentecostes, devido a uma “cúpula de calor” – uma zona de altas pressões que retém o ar quente procedente do norte de África – sobre França e sobre toda a Europa Ocidental, e a Météo-France não prevê qualquer alívio significativo antes de domingo.
“Estamos a receber um número enorme de idosos com desidratação”, disse Katou Blaise, de 57 anos, auxiliar de enfermagem nas urgências de um hospital em Rennes, no oeste de França, queixando-se da falta de meios materiais. Apesar dos alertas das autoridades, a onda de calor está a provocar mortes e afogamentos, e não apenas entre os idosos, particularmente vulneráveis.
No Reino Unido, foram já registados cinco mortos, indicaram as autoridades locais e a imprensa britânica. As autoridades francesas, por sua vez, reportaram esta manhã “sete mortes” ligadas à onda de calor, incluindo “pelo menos cinco afogamentos”.
“Infelizmente, sabemos que as temperaturas que atingimos hoje, com quase 35°C em Londres, provavelmente mataram centenas de pessoas em todo o país”, afirmou Bob Ward, especialista do Instituto Grantham para as Alterações Climáticas e o Ambiente, sublinhando que, apesar de acontecimentos passados, tanto as habitações como as infraestruturas se mantêm inadaptadas ao calor.
Em França, várias cidades reforçaram medidas em resposta à onda de calor: em Tours (oeste) e Paris, alguns parques vão estar abertos à noite “para proporcionar mais espaços frescos”, entre outras medidas. “Trabalho numa cozinha, por isso está a ser horrível”, disse Renata Stankeviciute, de 43 anos, lituana residente, em Londres, com esperança de que “em alguns dias, o frio volte”.
“Está sufocante, não se consegue respirar”, confidenciou Abdel (que preferiu não revelar o apelido), um trabalhador temporário da construção civil em Rennes, que começou o dia às 07:00 (06:00 de Lisboa) e disse que “não parou de beber água”.
“Quem não está preocupado com o aquecimento global deve ser surdo e cego, não?”, comentou Philippe Bignens, de 56 anos, um turista suíço que trabalha no ramo dos seguros. De acordo com a comunidade científica, as alterações climáticas induzidas pela atividade humana tornam mais intensos os fenómenos meteorológicos extremos, como as vagas de calor, as secas e as inundações.
Em consequência desta “cúpula de calor”, os termómetros marcaram na segunda-feira pela primeira vez 34,8°C em Kew Gardens, o parque botânico no sudoeste de Londres. Foi assim superado em 2ºC o anterior recorde de maio, estabelecido em 1944, ultrapassando em muito a média habitual para a época, de 17ºC ou 18°C.
“Um calor assim seria excecional no Reino Unido em pleno verão”, sublinhou o Met Office, que também não espera que as temperaturas voltem a cerca de 20°C antes do final da semana. A Irlanda registou também temperaturas inéditas para maio, atingindo 28,8°C no sul. Em França, o indicador térmico nacional, que mede a temperatura média em todo o país, atingiu hoje um novo recorde para maio, com 24,8°C, depois de na segunda-feira ter registado 24,6°C, já um recorde.
Um alerta laranja de calor, o segundo de três níveis de alerta, foi emitido para oito departamentos do oeste de França, medida nunca vista tão cedo no ano, e a onda de calor vai estender-se a 13 departamentos a partir de quarta-feira. Alguns agricultores e fruticultores anteciparam certas colheitas, e os viticultores esperam fazer vindimas antecipadas.
“Em algumas regiões, teremos vindimas a começar no início de agosto”, estimou Bernard Farges, presidente de uma organização francesa de vinhos. O primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, vai presidir na quinta-feira a uma reunião interministerial sobre esta vaga de calor, que também faz temer uma onda de poluição por ozono.
Em Paris, a temperatura ultrapassou na segunda-feira 33°C nos campos de ténis do torneio de Roland-Garros. O tenista norueguês Casper Ruud, sofrendo de exaustão pelo calor, pediu assistência médica no início do quarto ‘set‘, antes de se qualificar para a segunda ronda do torneio.
Em Espanha, os serviços meteorológicos preveem “noites tropicais generalizadas” no sudoeste a partir de quarta-feira, com as temperaturas a atingirem um pico entre quarta e sexta-feira, com máximas de entre 36º e 38°C. Em Itália, na região do Lácio, que inclui Roma, foram na segunda-feira adotadas normas a limitar o trabalho “com exposição prolongada ao sol” entre as 12:30 e as 16:00 locais.
Em vigor até 15 de setembro, esta regra foi pela primeira vez aplicada a 30 de maio do ano passado. Um relatório divulgado no final de abril pelo Serviço Europeu de Alterações Climáticas Copernicus (C3S) e pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) reiterou que, desde a década de 1980, “a Europa aqueceu duas vezes mais rapidamente do que a média global” e que “as vagas de calor estão a tornar-se cada vez mais frequentes e severas” em pelo menos 95% do território europeu.
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