Lagarde promete que BCE “não ficará paralisado” face à incerteza no Médio Oriente

  • Joana Abrantes Gomes
  • 25 Março 2026

“Não ficaremos paralisados pela hesitação: o nosso compromisso de atingir uma inflação de 2% a médio prazo é incondicional”, sublinhou a presidente Christine Lagarde numa conferência em Frankfurt.

Embora reconheça que o impacto causado até agora pelo conflito no Médio Oriente seja diferente da situação provocada pela invasão russa da Ucrânia no início de 2022, quando os preços subiram a dois dígitos, Christine Lagarde garantiu esta quarta-feira que o Banco Central Europeu (BCE) “não ficará paralisado pela hesitação” se o atual aumento dos custos da energia vier a provocar um agravamento mais generalizado de inflação.

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Há “motivos para vigilância”, mas “não iremos agir antes de ter informações suficientes sobre a dimensão e a persistência do choque e a sua propagação”, afirmou esta manhã a presidente do BCE, que falava na 26.ª edição da conferência “The ECB and Its Watchers”, em Frankfurt.

“Contudo, não ficaremos paralisados pela hesitação: o nosso compromisso de atingir uma inflação de 2% a médio prazo é incondicional“, ressalvou Lagarde, assegurando que a instituição está preparada, se for caso disso, “para introduzir alterações na [sua] política monetária em qualquer reunião”.

A subida vertiginosa dos custos da energia provocada pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irão está a alimentar receios de outro pico de inflação semelhante ao de há quatro anos. Perante este cenário, vários líderes de bancos centrais de países da Zona Euro, entre os quais o presidente do Bundesbank, Joachim Nagel, já indicaram que as taxas de juro poderão ter de ser aumentadas já em abril, caso as perspetivas para os preços se deteriorem ainda mais.

Na conferência do BCE desta quarta-feira, Christine Lagarde delineou três hipóteses sobre a forma como a instituição de Frankfurt deve reagir à situação atual:

  • Se o choque energético for de dimensão limitada e de curta duração, deverá aplicar-se a “abordagem clássica de ignorar o impacto”. “Os atrasos na propagação significam que uma resposta de política monetária chegaria demasiado tarde e correria o risco de ser contraproducente”, disse;
  • No caso de o choque energético dar origem a um desvio significativo, embora não demasiado persistente, em relação à meta do BCE para a inflação, “poderá justificar-se algum ajustamento moderado da política monetária”. Segundo Lagarde, “a resposta ótima a tal desvio é menor quando a causa são perturbações exógenas da oferta, em vez de uma forte procura, mas não é necessariamente nula”, acrescentando que “deixar tal ultrapassagem totalmente sem resposta poderia representar um risco de comunicação: o público pode ter dificuldade em compreender uma função de reação que não reage”;
  • Por último, se a inflação se desviar “de forma significativa e persistente” da meta dos 2%, “a resposta deve ser adequadamente enérgica ou persistente”. “Caso contrário, mecanismos de auto reforço entrariam em ação e o risco de descontrolo tornar-se-ia agudo”, realçou a líder do BCE.

A inflação, que há apenas algumas semanas corria o risco de ficar abaixo dos 2%, parece agora destinada a ultrapassar significativamente essa meta nos próximos meses. O cenário de referência do BCE, divulgado na semana passada, prevê que os preços no consumidor subam 2,6% este ano, enquanto num cenário extremo, em que as perturbações no abastecimento energético persistam, a inflação atingiria os 4,4%.

O aumento dos preços do petróleo e do gás também poderá prejudicar a economia dos países da área da moeda única, com os mais recentes dados do PMI, divulgados na terça-feira, a revelarem que a atividade empresarial da Zona Euro cresceu ao ritmo mais lento desde maio de 2025.

A presidente do BCE afirmou que os dados históricos sugerem que o risco de um efeito de contágio generalizado dos preços da energia “é a exceção e não a regra” na área do euro. Porém, este panorama poderá mudar tendo em conta a intensidade e duração do choque energético, bem como a sua propagação, que depende do ambiente macroeconómico. “É essencial identificar o mais cedo possível quando o choque corre o risco de se alargar“, realçou.

Neste momento, face aos ataques a infraestruturas energéticas na região do Golfo, os sinais não são bons, o que levou Lagarde a alertar que “a probabilidade de uma normalização rápida está a diminuir”. Daí que, como afirmou o líder do banco central da maior economia da Zona Euro, a experiência de 2022 com a subida dos preços provocada pela guerra na Ucrânia “desempenhará um papel importante” na ação do BCE desta vez.

(Notícia atualizada pela última vez às 10h26)

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