Guerra no Médio Oriente coloca crescimento da Zona Euro em ‘stand by’

  • Joana Abrantes Gomes
  • 24 Março 2026

O indicador de atividade da Zona Euro caiu 2,7% em março para os 50,5 pontos, sinalizando uma travagem da economia. Indústria impulsiona produção na Alemanha, mas França regista nova contração.

O crescimento da atividade empresarial da Zona Euro abrandou de forma acentuada em março, com o conflito no Médio Oriente a elevar os custos dos fatores de produção para o nível mais alto em mais de três anos e a provocar a pior perturbação nas cadeias de abastecimento desde meados de 2022, segundo mostram os inquéritos preliminares do Índice de Gestores de Compras (PMI) composto pelo Hamburg Commercial Bank (HCOB) e compilado pela S&P Global.

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O indicador, divulgado esta terça-feira, revela que a atividade empresarial da área da moeda única ficou nos 50,5 pontos (ligeiramente acima da marca que separa o crescimento da contração), caindo 2,7% face aos 51,9 pontos de fevereiro e situando-se no nível mais baixo em 10 meses. Os analistas previam uma queda mais modesta, para os 51,0 pontos. Há 15 meses consecutivos que o PMI se mantém acima dos 50 pontos.

A estagnação do crescimento deve-se a uma quebra nas novas encomendas — um indicador-chave da procura —, a primeira em oito meses, face à fraqueza observada, em particular, no setor dos serviços. Já as encomendas na indústria transformadora continuaram a crescer, embora o valor da produção neste setor tenha descido de 51,9 pontos em fevereiro para 51,7 pontos em março.

“O PMI preliminar da Zona Euro está a fazer soar o alarme de estagflação, uma vez que a guerra no Médio Oriente está a impulsionar os preços para cima de forma acentuada, ao mesmo tempo que sufoca o crescimento”, afirmou Chris Williamson, economista-chefe de negócios da S&P Global Market Intelligence, citado pela Reuters.

Os custos globais dos fatores de produção registaram o maior aumento desde fevereiro de 2023, sendo que quer o setor industrial como o dos serviços se deparam com uma inflação mais acentuada. Esta aceleração foi mais pronunciada no setor industrial, devido ao aumento dos preços da energia e ao estrangulamento das cadeias de abastecimento causados pelo conflito dos EUA e de Israel contra o Irão.

Por outro lado, os prazos de entrega dos fornecedores da indústria transformadora registaram o maior aumento desde agosto de 2022, na sequência, sobretudo, das perturbações no transporte marítimo relacionadas com a guerra.

Já o emprego caiu em março pelo terceiro mês consecutivo. Os cortes de postos de trabalho concentram-se no setor industrial, em que os níveis de pessoal têm vindo a diminuir mensalmente desde junho de 2023. Nos serviços, o emprego aumentou marginalmente, mas teve o menor crescimento desde setembro do ano passado.

Ainda segundo os inquéritos, a confiança das empresas desceu para o seu nível mais baixo em quase um ano, com a queda mensal a ser a maior desde a invasão russa da Ucrânia em fevereiro de 2022. Embora as empresas se mantenham otimistas quanto à produção no próximo ano, o sentimento ficou abaixo da média da série.

“Entretanto, o crescimento da produção abrandou para um nível próximo da estagnação, devido a uma queda na confiança das empresas e à deterioração das novas encomendas”, acrescentou Williamson.

Os dados do inquérito apontam também para um abrandamento do crescimento do produto interno bruto (PIB) da Zona Euro, para uma taxa trimestral ligeiramente inferior a 0,1% em março, com as perspetivas a sugerirem um risco acrescido de recessão nos próximos meses.

Produção abranda na Alemanha, mas cai em França

O cenário de abrandamento verificou-se na maior economia da Zona Euro. Em março, o setor privado alemão cresceu ao ritmo mais fraco dos últimos três meses, tendo caído de 53,2 pontos em fevereiro para 51,9 pontos este mês. As previsões apontavam para uma desaceleração para os 52,0 pontos do PMI da Alemanha.

“Os dados preliminares de março mostram os primeiros impactos da guerra no Médio Oriente no crescimento, na procura, na confiança das empresas e, talvez mais notavelmente, nos preços”, afirma Phil Smith, da S&P Global Market Intelligence.

No setor dos serviços, a atividade abrandou para um mínimo de sete meses, atingindo os 51,2 pontos, enquanto o PMI da indústria transformadora subiu para 51,7 pontos, um máximo de 45 meses. As novas encomendas registaram um aumento pelo terceiro mês seguido.

A atividade empresarial em França, porém, registou uma contração em março ao ritmo mais rápido desde outubro, penalizada pela fraca procura, as perturbações no abastecimento relacionadas com a guerra no Irão e a cautela dos clientes antes das eleições locais no país. Segundo os inquéritos preliminares da S&P Global, o PMI francês caiu para 48,3 pontos em março, face aos 49,9 registados em fevereiro.

“Abril poderá dar-nos uma melhor indicação do verdadeiro estado da economia, mas, por agora, a recuperação florescente da França parece estar em suspenso”, aponta Joe Hayes, economista da S&P Global Market Intelligence.

A atividade no setor dos serviços enfraqueceu ainda mais, com o PMI dos serviços a cair de 49,6 pontos para 48,3 pontos, o seu nível mais baixo em cinco meses, enquanto a produção industrial registou um declínio pela primeira vez este ano — de 51,6 pontos em fevereiro para 48,5 pontos em março, o nível mais baixo em quatro meses –, apesar de o PMI da indústria ter subido ligeiramente de 50,1 para 50,2 pontos.

Quanto aos novos negócios, os dados revelam uma queda ao ritmo mais acentuado desde julho de 2025. A procura internacional por bens e serviços franceses, por seu lado, diminuiu ao ritmo mais acentuado em 15 meses.

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