Alguém sabia o que Trump ia anunciar sobre o Irão e fez uma fortuna

Pouco antes de Trump anunciar “conversas construtivas” com o Irão, foi comprado 1,5 mil milhões de dólares em futuros de ações e vendidos 192 milhões em crise, levantando suspeitas de inside trading.

ECO Fast
  • Donald Trump anunciou a suspensão de ataques às infraestruturas energéticas do Irão minutos após transações suspeitas de 1,5 mil milhões de dólares em futuros do S&P 500.
  • As operações ocorreram num período de baixa liquidez, com volumes incomuns que levantaram suspeitas de insider trading, um crime nos EUA.
  • A falta de uma investigação formal sobre as transações deixa dúvidas sobre a legalidade das operações e a possibilidade de acesso a informações privilegiadas.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Minutos antes de, na segunda-feira, Donald Trump mudar o rumo dos mercados com uma publicação na rede social Truth Social, alguém ganhou muito dinheiro de forma ardilosa.

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Na manhã de 23 de março, cerca de cinco minutos antes de o presidente norte-americano anunciar a suspensão dos ataques militares às infraestruturas iranianas e revelar que os dois países estavam em negociações, foram comprados 1,5 mil milhões de dólares em futuros do S&P 500 e vendidos 192 milhões de dólares em futuros de petróleo. Um padrão que, na linguagem dos mercados, raramente acontece por acaso.

O episódio ganhou contornos públicos após várias contas na rede social X, incluindo a conta Unusual Whales – uma das mais seguidas no X para monitorização de padrões atípicos nos mercados financeiros – ter documentado as transações com precisão de minuto a minuto.

Ninguém aposta mais de 1,5 mil milhões de dólares num só trade com base num feeling num mercado de pouca liquidez e num movimento totalmente contrário ao do mercado.

O analista Adam Cochran, também no X, acrescentou que as ordens foram entre 4 a 6 vezes maiores do que qualquer outra transação registada naquele mesmo período da manhã, uma hora tipicamente de baixa liquidez nos mercados de futuros norte-americanos.

A magnitude das operações não deixa margem para grandes dúvidas: ninguém aposta 1,5 mil milhões de dólares em futuros de ações e vende simultaneamente quase 200 milhões em petróleo com base num feeling num movimento totalmente contrário ao do mercado, e muito menos cinco minutos antes de um anúncio presidencial que move os mercados exatamente na direção dessas apostas.

O anúncio de Donald Trump, publicado no Truth Social por volta das 7h05 em Nova Iorque, afirmando ter ordenado ao Pentágono para suspender durante cinco dias os bombardeamentos planeados contra infraestruturas energéticas iranianas, citando conversações “muito boas” com Teerão, desencadeou um sismo nos mercados.

Os futuros do S&P 500 dispararam mais de 2,5%, enquanto os futuros do petróleo WTI afundaram perto de 6% em segundos. Quem tinha comprado ações e vendido petróleo nos minutos anteriores ficou, em questão de instantes, com um lucro considerável.

A suspeita de insider trading, negociação com recurso a informação privilegiada, que é crime nos EUA, não é nova no contexto da guerra com o Irão.

Já no início de março, a organização de defesa do consumidor Public Citizen tinha escrito formalmente à Commodity Futures Trading Commission (CFTC) a pedir uma investigação sobre apostas suspeitas na plataforma de mercados de previsão Polymarket, realizadas momentos antes do ataque norte-americano-israelita ao Irão a 28 de fevereiro.

Um utilizador anónimo identificado como “Magamyman” chegou a ganhar 553 mil dólares ao apostar na “saída do poder” do líder supremo iraniano Ali Khamenei, pouco antes de um ataque ter confirmado a sua morte. Agora, a plataforma Polymarket anunciou também uma investigação a contas suspeitas que apostaram numa trégua EUA-Irão precisamente antes do anúncio de segunda-feira.

O secretário do Interior norte-americano, Doug Burgum, admitiu em março que a administração Trump tinha discutido internamente a possibilidade de negociar futuros de petróleo como estratégia para conter a subida dos preços do crude durante a guerra.

No caso concreto das negociações de segunda-feira, nem a Securities and Exchange Commission (SEC) – o supervisor do mercado de capitais dos EUA -, nem o CME Group – a bolsa de Chicago onde estes futuros são transacionados – confirmaram qualquer investigação sobre as operações.

A CNBC contactou ambas as entidades, mas não obteve resposta imediata. É importante sublinhar que picos de volume em futuros durante períodos de baixa liquidez podem ter explicações alternativas, como estratégias de trading algorítmico ou posicionamentos macro que, por coincidência, precederam o anúncio presidencial. Sem uma investigação formal, não é possível afirmar com certeza que houve acesso ilegal a informação privilegiada.

Há, contudo, um dado que alimenta o ceticismo: o próprio secretário do Interior norte-americano, Doug Burgum, admitiu em março que a administração Trump tinha discutido internamente a possibilidade de negociar futuros de petróleo como estratégia para conter a subida dos preços do crude durante a guerra.

A revelação, noticiada pela Fortune, não implicou que o governo norte-americano tenha agido nesse sentido. Doug Burgum disse não ter conhecimento de que tal tivesse acontecido, mas expôs que o tema estava na mesa das reuniões da administração.

Acresce que o Irão, através dos seus meios de comunicação estatais, negou ter realizado quaisquer conversações diretas ou indiretas com Washington, colocando em dúvida a própria substância do anúncio de Trump.

O episódio soma-se a um padrão crescente de suspeitas em torno de negociações nos mercados financeiros que precedem anúncios sensíveis da Casa Branca.

Os mercados de futuros são, por natureza, opacos o suficiente para dificultar a prova definitiva de insider trading sem acesso aos registos de identidade dos operadores, algo que apenas reguladores com poderes de investigação, como a SEC ou a CFTC, podem obter. Por agora, a questão permanece sem resposta oficial: quem sabia o quê, e quando soube?

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