Menos construção e mais casas sobrelotadas. O retrato do parque habitacional da última década

Há menos casas, para menos pessoas, mas sobrelotação e casas vazias aumentaram. No dia em o Parlamento discute o Mais Habitação, eis o retrato do parque habitacional da última década.

Embora a crise habitacional tenha agravado de forma acentuada nos últimos dois anos — à boleia do aumento das taxas de juro e da inflação — os sinais da decadência do setor são sentidos desde a última década. Mais concretamente: entre 2011 e 2021, a inauguração de novas habitações abrandou e o número de casas sobrelotadas aumentou. Para suprir estas carências, são necessárias cerca de 136 mil casas, mas, no início da década, existiam 723 mil habitações vazias.

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Os dados constam na análise mais detalhada do “Parque Habitacional: Análise e Evolução 2011-2021”, realizada pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) em colaboração com o Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC), e divulgada esta quarta-feira, dia em que o Ministro das Infraestruturas, Miguel Pinto Luz, estará no Parlamento para discutir o pacote Mais Habitação do Governo anterior.

Menos casas novas e as existentes são velhas

Neste documento, que sucede à análise preliminar divulgada no ano passado, o INE revela que, com base nos Censos 2021, se verificou um abrandamento no crescimento do parque habitacional, com aumentos de apenas 0,8% para os edifícios e 1,9% para os alojamentos familiares clássicos em relação a 2011. Este crescimento, informa o gabinete de estatística, é “significativamente inferior ao observado em décadas anteriores”.

Segundo o INE, estima-se que em 2021 tenham sido concluídos 19.616 fogos em obras de construção nova e 3.906 em intervenções de reabilitação, representando, respetivamente, 83,4% e 16,6% do total de fogos concluídos.

Olhando para o parque habitacional em 2021, o INE informa que naquele ano existam 3.573.416 edifícios. Desse total, apenas 110.784 edifícios foram construídos entre 2011 e 2021, representando 3,1% do total. O resto remonta a anos anteriores. Por exemplo, quase metade (49,8%) foi construída após 1980.

Por outro lado, 31,9% dos edifícios foram construídos entre 1981 e 2000 e 17,9% ergueram-se neste século.

Com população a decrescer, constroem-se casas cada vez maiores

Na última década, Portugal enfrentou pela primeira vez, em 50 anos, uma diminuição da população. Entre 2011 e 2021, a população residente reduziu-se em 2,1%, correspondendo a um valor absoluto de menos 219.912 de pessoas.

O INE explica que este declínio populacional é resultado do saldo natural negativo verificado na década, ainda que nesse período se tenha registado um saldo migratório “ligeiramente positivo”, ainda assim insuficiente para inverter o decréscimo. Feitas as contas, 19 de abril de 2021, a população residente no país era de 10.343.066 pessoas.

Mas a tendência não ficou refletida na evolução do parque habitacional. Na verdade, tal como revela esta quarta-feira o INE, nos alojamentos construídos na última década verificou-se um predomínio dos fogos que tinham quatro ou cinco assoalhadas, representando 54,7%. Os alojamentos com seis ou mais divisões também cresceram, embora a um ritmo menos acentuado.

Em metros quadrados a tendência é igual. Comparando os alojamentos construídos na última década com o total nacional, verificou-se um aumento de 13,6 pontos percentuais (p.p.) dos alojamentos com área útil superior a 200 metros quadrados, enquanto as habitações com área útil inferior a 100 metros quadrados recuaram 21,4 p.p.

Mesmo com 723 mil casas vazias, sobrelotação aumenta

Em 2021, dos mais de 5,9 milhões de alojamentos familiares clássicos que constituíam o parque habitacional, 69,4% encontravam-se ocupados como residência habitual, enquanto as residências secundárias representavam 18,5%. Dessa fatia, 12,1% (ou 723.215) são referentes a alojamentos vagos 12,1%.

Segundo o INE, no que se refere aos alojamentos vagos — com a exceção das regiões do Cávado, Ave e Península de Setúbal, que tinham um peso inferior a 10% — todas as restantes regiões variaram a sua representatividade entre 10% e 17,4%, verificada na Área Metropolitana do Porto e nas regiões do Alto Alentejo e do Médio Tejo, respetivamente.

Isto acontece numa altura em o número de alojamentos sobrelotados aumentou “significativamente”, detalhou, António Vilhena, investigador do LNEC. Em 2021, este tipo de habitação representava 12,7% do total de alojamentos familiares clássicos de residência habitual (527.855), tendo aumentado entre 20211 e 2021 17,1% depois de uma redução verificada entre 1991 e 2011.

Os dados de sobrelotação surgem acompanhados de detalhes sobre os alojamentos vagos. Segundo o INE, em 2021, existiam em Portugal 154.075 alojamentos vagos para venda ou arrendamento sem necessidade de reparações ou com necessidade de reparações ligeiras, e que face às carências habitacionais quantitativas, observava-se naquele ano, “uma margem de 17.275 alojamentos imediatamente disponíveis para utilização”.

Mas esse valor não seria suficiente para suprir as necessidades. O INE informa que em 2021 as carências habitacionais quantitativas existentes em Portugal eram de 136.800 alojamentos, correspondendo a 3,3% do total de alojamentos familiares ocupados como residência habitual.

Do total de carências, o gabinete de estatística destaca um total de 75.494 para suprir situações de alojamentos sobrelotados ocupados por um agregado com um núcleo familiar em coabitação com outras pessoas (55,2%) e um total de 55 098 para suprir situações de alojamentos sobrelotados de agregados com dois ou mais núcleos familiares (40,3%).

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