Portugal está bem na transição energética, mas falta mão de obra
João Rodrigues, da APIEE, e Luís Marçal, da Siemens, discutiram os desafios do mercado português, da escassez de eletricistas ao papel da tecnologia na execução dos projetos de infraestrutura.
A conferência Transição das Infraestruturas, promovida pela Siemens Portugal em parceria com o ECO, terminou com uma conversa entre Luís Marçal, responsável pela Smart Infrastructure da Siemens Portugal, e João Rodrigues, diretor executivo da Associação Portuguesa dos Industriais de Engenharia Energética (APIEE), que representa empresas instaladoras de eletricidade, gás e telecomunicações. Segundo João Rodrigues, este universo gera cerca de 1.500 milhões de euros por ano e emprega, direta e indiretamente, cerca de 30 mil pessoas.
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Sobre o estado da transição energética nacional, o responsável defende que “Portugal está bem na transição energética” e que tem “feito, obviamente, um enorme esforço para isso”, recordando que o país já produz mais de 82% da sua eletricidade a partir de fontes renováveis.
“Se vejo aqui algum bottleneck, eu diria que é a mão de obra. Neste momento é absolutamente algo com que todos temos de nos preocupar”, sublinha. O operador da rede de distribuição anunciou um aumento de investimento entre 50% e 60%, o que exigiria reforçar em mais de três mil pessoas os atuais seis mil técnicos que hoje fazem este trabalho no terreno, o que se afigura uma tarefa hercúlea. Também na rede de transporte, a expansão prevista de 1.900 quilómetros nos próximos anos vai exigir mais mão de obra qualificada.
Um estudo concluiu que Portugal, Espanha e Finlândia têm excesso de eletricistas. A minha resposta foi: digam-me onde é que eles estão, porque nós precisamos deles e ainda não chegou nenhum
“Um estudo concluiu que Portugal, Espanha e Finlândia têm excesso de eletricistas. A minha resposta foi: digam-me onde é que eles estão, porque nós precisamos deles e ainda não chegou nenhum”, ironiza João Rodrigues. Atrair estes profissionais passa, defende, por valorizar melhor a profissão. “É preciso criar as condições para remunerar bem estas pessoas. É preciso que o país saia deste vício do preço mais barato”, afirma, apontando também os reguladores e os consumidores, que tendem a esquecer rapidamente a importância destas infraestruturas, mesmo depois de incidentes como apagões.
Questionado por Luís Marçal sobre se bastaria mão de obra e tecnologia para acelerar a transição, João Rodrigues recordou que soluções hoje maduras, como o fotovoltaico, eram vistas com desconfiança há duas décadas. “Há 20 anos, o fotovoltaico era uma espécie de devaneio. Felizmente, hoje está absolutamente consolidado”, diz, embora defenda que é preciso continuar a apostar em tecnologias ainda em maturação, como os gases renováveis, o biometano e o hidrogénio. Os próprios instaladores, acrescenta, transformaram-se em empresas de engenharia e tecnologia, mais focadas em planeamento do que na execução manual no terreno.
“Para mim é absolutamente fundamental” que a tecnologia seja um acelerador, considera. O responsável elogia ainda a ideia de ecossistema, repetida ao longo do evento, com uma ressalva. “Temos um verdadeiro ecossistema, forte, que nos trouxe até aqui, mas há ainda ligações que precisam de ser bem trabalhadas, para se tornar mais robusto e mais coletivo”, avisa.
Luís Marçal sublinhou o contributo da Siemens nesta área, nomeadamente na mobilidade elétrica, lembrando que a empresa tem apostado na produção de “carregadores de veículos elétricos em Portugal”.
A conversa terminou com um desafio sobre o futuro a dez anos e com João Rodrigues a admitir ser mais fácil imaginar essa distância do que prever o dia seguinte. “Acredito nas futuras gerações, às vezes desacreditando na minha geração e na anterior. E acredito que colaboração positiva vai ser a forma como vamos estar daqui a dez anos”, concluiu.

Antecipar riscos e oportunidades
O encerramento da conferência ficou a cargo de Sofia Tenreiro, CEO da Siemens Portugal, que defendeu que se vive uma era de incerteza geopolítica, mas que a tecnologia é hoje a principal ferramenta para tornar os sistemas energéticos mais resilientes e independentes. “A eletrificação é a solução para conseguir que estes sistemas sejam todos muito mais resilientes, sejam todos muito mais inteligentes, sejam todos muito mais sustentáveis”, acredita.
A líder da tecnológica avisa ainda que chegou a hora de sair do planeamento e entrar na execução. “Precisamos de ação, precisamos de execução, precisamos de escalar e precisamos de acelerar muito mais”, diz.
Sofia Tenreiro defende também que a inteligência artificial deve servir sobretudo para antecipar problemas em vez de reagir a eles, porque “permite-nos apostar muito mais numa previsão e não tanto na reação” e isso permite que sejamos “muito mais proativos”, mas também “anteciparmos riscos, anteciparmos oportunidades”.
Como exemplo de como juntar o mundo físico ao digital, citou a bomba de calor recentemente inaugurada na Sociedade Central de Cervejas, simulada através de um digital twin com 74 mil milhões de pontos de dados, que permitiu testar dezenas de cenários sem parar a fábrica um único dia.
Assista à apresentação no vídeo abaixo.
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