Transportes são o teste decisivo à coesão dos Açores
Na conferência ECO Açores, economistas e investidores defenderam que sem concorrência, mais produtividade e ligações eficazes será difícil travar a perda de população.
No terceiro e último painel da conferência ECO Açores, organizada pelo ECO no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada, discutiram-se os “Desafios Estruturais: Demografia, Transportes e Coesão”. No debate, moderado pelo subdiretor do ECO Tiago Freire, defendeu-se que a coesão dos Açores joga-se sobretudo na capacidade de garantir ligações aéreas e marítimas eficientes, maior competitividade empresarial e condições para fixar a população.
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No painel sobre "Desafios Estruturais: Demografia, Transportes e Coesão", moderado pelo subdiretor do ECO Tiago Freire, participaram Óscar Afonso (Faculdade de Economia da Universidade do Porto), Mário Fortuna (Fábrica de Tabaco Micaelense) e Sérgio Monteiro (Horizon Equity Partners) -
A conferência ECO Açores contou com casa cheia no Teatro Micaelense, em Ponta Delgada
Mário Fortuna, professor catedrático jubilado em Economia e presidente da Fábrica de Tabaco Micaelense, colocou os transportes no centro do problema. “A coesão dos Açores expressa-se de forma muito acentuada através dos transportes, particularmente os transportes aéreos e os transportes marítimos”, afirmou, defendendo que o atual modelo tem custos muito elevados e resultados cada vez mais frágeis.
Segundo as contas apresentadas pelo economista, juntando elementos como o subsídio social de mobilidade, as obrigações de serviço público, os reencaminhamentos, as indemnizações compensatórias e os prejuízos associados à SATA, a política de mobilidade aérea pode representar “cerca de 250 milhões de euros por ano”. “A situação neste momento é má e estrutural. É estrutural, não é conjuntural”, avisou.
A SATA e a TAP não conseguem, de maneira nenhuma, reproduzir o efeito Ryanair ou o efeito EasyJet
Para Mário Fortuna, a saída ou retração de companhias low cost como a Ryanair agravou o problema ao reduzir a concorrência. “A SATA e a TAP não conseguem, de maneira nenhuma, reproduzir o efeito Ryanair ou o efeito EasyJet”, apontou, sublinhando que a perda de conectividade afeta os turistas, mas também os residentes e a própria notoriedade do destino. “A coesão por via dos transportes aéreos está, neste momento, em regressão na região”.
O economista foi ainda mais crítico na comparação entre transporte aéreo e marítimo, lembrando que, se no primeiro caso há fortes apoios públicos, no segundo, o esforço recai sobretudo sobre a economia regional, nos privados. “Os transportes de mercadoria, na importação e na exportação, são caríssimos, sacrificando quer os consumidores internos, quer a competitividade externa dos Açores”, criticou.
As consequências não são apenas económicas e refletem-se também na demografia, que é “um sintoma”. “As pessoas saem de uma região quando não têm condições económicas para viver nesta região”, reconhece. Por isso, considera insuficiente responder ao problema apenas com políticas de natalidade, porque “se no dia a seguir, quando as pessoas tiverem que entrar no mercado de trabalho não tiverem condições, vão emigrar para outro lado”.
Óscar Afonso, professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, alargou a análise ao desempenho económico nacional para lembrar que Portugal tem crescido em média cerca de 1% ao ano desde 1999, enquanto a União Europeia (UE) e os países de Leste avançaram mais depressa. “Estamos a ser apanhados pelos países de Leste, já fomos ultrapassados por alguns”, lamenta.
A economia açoriana tem muito potencial, pode progredir muito, mas para isso tem que ganhar competitividade
Para o economista, o problema central está na falta de investimento, na baixa produtividade e na falta de estratégia. “Se quisermos ter crescimento sustentado, temos que ter cinco coisas”, defendeu, apontando instituições de qualidade, capital humano, investimento, capital produtivo e tecnologia. No caso dos Açores, a prioridade deve ser ganhar competitividade, acredita. “A economia açoriana tem muito potencial, pode progredir muito, mas para isso tem que ganhar competitividade”.
Óscar Afonso reconheceu a importância do turismo, embora tenha feito questão de deixar um alerta contra a concentração excessiva num só motor. “O turismo é importante, acho que devemos aproveitar esta janela da oportunidade”, afirmou, acrescentando que “também não podemos concentrar tudo no turismo”. A diversificação deve passar por mais produtividade, tecnologia e melhor utilização dos fundos públicos.
“Temos de fazer a nossa parte”
Sérgio Monteiro, managing partner da Horizon Equity Partners, levou uma visão mais empresarial e reconheceu que a região mudou muito na última década e meia. “Não temos, acho eu, nos Açores, nenhum problema de ambição. O problema de ambição tínhamos na altura”, disse, recordando o debate em torno da liberalização do transporte aéreo em 2014, numa altura em que era Secretário de Estado dos Transportes.
Não podemos elogiar a promoção, mas depois não estar disponíveis para participar nela
Para o antigo governante, a coesão faz-se com medidas concretas, nomeadamente a tarifa Açores [que assegura uma comparticipação pública nas viagens áreas dos açoreanos], que considerou relevante para a mobilidade interna. Mas deixou também um recado, assinalando que não é possível “elogiar certas medidas como a tarifa Açores e lamentar o custo”. “Não podemos elogiar a promoção, mas depois não estar disponíveis para participar nela”, criticou.
Sérgio Monteiro defendeu ainda que os beneficiários diretos e indiretos do turismo devem contribuir mais para promover o destino e lembrou que “temos fazer a nossa parte”, garantindo disponibilidade do grupo que representa, e que tem investimentos em infraestruturas locais, para participar financeiramente na promoção da região. “A responsabilidade social perante a região também nos obriga a fazê-lo”.
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