Carlos Mendes Gonçalves: “Tudo o que é importante na nossa vida começou com falhanços monumentais”

  • ECO
  • 30 Março 2026

Criar um vinagre de figo foi a alavanca para Carlos Mendes Gonçalves, CEO da Casa Mendes Gonçalves, querer construir um negócio. Fê-lo com apenas 15 anos e partilha, aqui, a sua experiência.

Carlos Mendes Gonçalves, CEO da Casa Mendes Gonçalves, é o 71º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Com apenas 15 anos assumiu a frente da empresa e um empréstimo de 30 mil contos, que hoje equivale a quase 150 mil euros. Queria apostar numa ideia, o vinagre de figo, e garantir um emprego e um ordenado ao final do mês. 40 anos depois, o negócio, sediado na Golegã, expandiu para a área dos molhos e condimentos e tem uma distribuição global.

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Aos 15 anos, fui emancipado sócio da empresa e fiquei responsável por pagar um empréstimo de 30 mil contos. Foi um passo bastante importante porque era preciso capital e nós não tínhamos. Na altura, ao ver a minha vontade de querer fazer acontecer, o meu pai colocou tudo o que tinha, mas depois pedimos esse empréstimo, que foi determinante para o que eu sou hoje“, começou por dizer.

Depois de pedido o empréstimo, colocou mãos à obra e tentou fazer acontecer a ideia que lhe gerou a vontade de empreender: “Começamos a fazer vinagre de figo de Torres Novas. Escolhemos fazer um produto que ninguém tinha feito numa empresa que estava a começar, com uma matéria-prima da nossa região. O produto em concreto não vingou naquela altura, mas esta vontade de querer fazer diferente marca-nos ainda hoje”.

Apesar da aparente falha, Carlos Mendes Gonçalves garante que isso “não é problema nenhum”. “Tudo o que é importante na nossa vida começou com falhanços monumentais. O problema é falhar e ficar ali a insistir, em vez de mudar rapidamente. No nosso caso, mudamos e começamos a ter outros vinagres”, explicou.

Adaptaram a oferta às necessidades do consumidor e, num processo que considerou “lento”, foram crescendo. No entanto, a determinado momento, percebeu que “não conseguia crescer mais com o vinagre” e alargou a oferta para outros produtos: “Compramos a Paladin e passamos a ter molhos. E esse foi o grande salto para aquilo que somos hoje e para a visibilidade que temos agora”.

“O objetivo foi relançar a Paladin naquilo que é hoje e isso foi o ponto de viragem da fábrica, que até então fazia produtos e tinha as suas marcas, mas que não eram conhecidas, para uma casa de marcas. Este foi o princípio de começar a pensar a nossa atividade através de marcas próprias. Pegar em marcas, como aconteceu com a Paladin, que vendia 300 euros e estava morta, e que hoje vende oito milhões; pegar agora na Diese, que começou nos anos 50 e da qual já ninguém se lembra, para transformá-la numa marca de alimentação saudável do futuro, é também muito do nosso propósito. Se há alguém que fez algo bem, mas que, por alguma razão, se perdeu, isso é uma oportunidade para pegarmos na ideia e trazê-la cá para cima“, continuou.

Além de haver espaço para muitas marcas, o CEO destacou também o acolhimento que têm feito a várias empresas. “Na casa, queremos que haja espaço para outros empresários. Neste momento, através da Ventures, nós estamos a acolher empresas, que são grandes ideias de pessoas com vontade de fazer, não para as adquirir, mas sim para se juntarem a nós e se lançarem connosco“, contou.

Este acolhimento reflete outro dos grandes propósitos de Carlos Mendes Gonçalves, que se concentra em desenvolver a sociedade: “A ideia original de criar a empresa na Golegã tinha o intuito de criar desenvolvimento na nossa terra. A partir do momento em que começamos a ter dezenas de pessoas a trabalhar para nós, passamos a ter uma importância e responsabilidades muito grandes. Mas também é uma oportunidade gigante estar na nossa terra, com a nossa gente, num meio que podemos influenciar. De que me interessa ter uma empresa de sucesso se a sociedade não funciona?“.

“Usamos muitas vezes o termo família [dentro da empresa] e há quem critique isso. Mas somos família neste sentido de amizade, de união, de proximidade e de construção conjunta. Ainda recentemente melhoramos o nosso espaço de refeição porque é um espaço comum, onde podemos estar todos noutro contexto. Uma vez mais, é um privilégio poder estar assim, até porque algumas daquelas pessoas são meus amigos de infância, pessoas que eu conheço desde sempre. Acho que nunca fui ´chefe´ e espero nunca ser“, acrescentou.

O administrador da Casa Mendes Gonçalves confessou, ainda, que costuma desvalorizar quando o parabenizam por tudo o que conseguiu, já que considera que a empresa apenas se estabeleceu como referência devido a todas as pessoas que acreditaram no seu sonho. “Foi um conjunto de gente que fez aquilo que somos hoje, não fui eu sozinho. Claro que a formação é absolutamente essencial, mas também é esse o nosso papel. O facto de estarmos numa terra pequena traz uma oportunidade gigante de realmente ter impacto. E isso foi uma grande vantagem para que, fruto do esforço de tantos, nos tornássemos uma grande empresa”, afirmou.

Ainda assim, apesar de reconhecer o impacto positivo que a sua empresa tem na sociedade, Carlos Mendes Gonçalves quis alargá-lo com a criação da Fundação Mendes Gonçalves: “Achei que era mesmo uma obrigação criar a fundação porque esta empresa nasceu de um miúdo que só queria ter o seu emprego, mas hoje é o que é graças àquela sociedade. O futuro daquela casa vai ser o futuro da sociedade. E nós queremos transformar a nossa região através da nossa atividade. Queremos dizer que é possível, através de uma atividade económica, fazer muito mais“.

“Temos de criar condições para que exista uma região onde as pessoas se sentem bem em viver. Essas pessoas não têm necessariamente de trabalhar connosco ou numa atividade como a nossa. Se existirem condições, vai aparecer gente com iniciativa a querer viver ali, que vai dinamizar a terra e, ao fazê-lo, vão aparecer mais empresas. E queremos muito que apareçam empresas maiores que nós porque, se acontecer, vamos sentir que cumprimos a nossa função“, concluiu.

Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan.

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