Para onde vai o Brexit a seguir? Quatro caminhos possíveis
No capítulo em que está a novela do Brexit, Boris Johnson tem, agora, quatro caminhos possíveis. Um deles passa mesmo pela demissão. O outro, finalmente, por um acordo.
O prazo está decidido: o Reino Unido deverá abandonar a União Europeia a 31 de outubro. Mas o prazo pode, mais uma vez, sofrer uma extensão. Isto porque, na semana passada, a Câmara dos Lordes aprovou o projeto de lei para impedir um hard Brexit. A legislação exige que o primeiro-ministro, Boris Johnson, peça uma nova extensão da data de saída até 31 de janeiro. Isto caso o Parlamento não aprove um acordo de saída ou não autorize uma saída sem acordo até 19 de outubro.
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Boris Johnson disse que “preferia estar morto numa valeta” do que pedir um novo adiamento. Mas, quais são afinal os caminhos que o primeiro-ministro britânico pode seguir? No dia em que o Governo britânico divulgou um documento que prevê um cenário caótico em caso de um Brexit desordenado, a Bloomberg (acesso condicionado, conteúdo em inglês) traçou quatro cenários possíveis.
1. Johnson faz acordo
Este seria o cenário ideal, tanto na opinião da União Europeia como do Governo britânico. Ainda assim, Boris Johnson considera que ter o hard Brexit em cima da mesa é uma ferramenta importante para a negociação com Bruxelas. O primeiro-ministro britânico defende que, para o Reino Unido ter um bom desempenho durante as negociações, é preciso fazer com que a UE deixe de acreditar que o Parlamento britânico vai sempre bloquear uma saída desordenada.
Seguindo o mesmo raciocínio, o secretário para as Relações Exteriores, Dominic Raab, afirmou que a legislação recentemente aprovada “enfraquece” o lado britânico no seu diálogo com a União Europeia. Já o bloco europeu considera que o Governo britânico tem mostrado pouca disponibilidade e esforço para negociar com Bruxelas.
Recorde-se que, para haver um acordo entre as duas partes, a questão da fronteira da Irlanda — que continua a ser o problema central nas discussões do Brexit — teria de ser resolvida com uma solução aceitável quer para britânicos e europeus, quer para os unionistas e republicanos na Irlanda do Norte, que é parte do Reino Unido.
2. Johnson rejeita acordo
A legislação, aprovada na semana passada, pretende forçar Boris Johnson a procurar uma extensão do prazo de saída do Reino Unido da UE. Mas as declarações do primeiro-ministro britânico fazem crer o contrário. “Preferia estar morto numa valeta [a pedir um novo adiamento]” ou “não vou ser eu quem vai pedir mais uma extensão ao processo de Brexit” são apenas alguns exemplos.
O primeiro-ministro pode, por um lado, simplesmente ignorar a legislação, evitando um novo adiamento do Brexit, ou, por outro, convencer, de alguma forma, a União Europeia a rejeitar o seu pedido de extensão. Neste caso, o Reino Unido sairia da UE no dia 31 de outubro sem acordo e Jonhson, a precisar de maioria no Parlamento, tentaria ir a eleições. O resultado da eleição, por sua vez, iria depender em grande medida de como um hard Brexit se desenrolaria. Se, como Jonhson certamente espera, a perturbação fosse mínima, ele estaria em condições de acabar com o Partido do Brexit de Nigel Farage e apresentar-se como o homem que finalmente cumpriu o mandato do Brexit.
3. Johnson recua
Por outro lado, Boris Johnson pode mesmo recuar e aceitar uma extensão do prazo de saída. Perante a ameaça de demissão em massa do seu Governo, caso o primeiro-ministro recuse obedecer à lei, Johnson poderá acabar por concordar com o pedido de uma prorrogação. E, em seguida, poderá convocar eleições, possivelmente entre novembro e dezembro. Este posicionamento poderia até beneficiar o Partido Conservador, mais conotado a um partido pro-Brexit, contrariamente ao recém-criado Partido Brexit.
4. Johnson demite-se ou é forçado a demitir-se
Boris Johnson tem, agora, até ao dia 19 de outubro para conseguir aprovar no Parlamento um acordo para a saída do Reino Unido da UE. Se esta data passar e não houver, ainda, acordo à vista, o primeiro-ministro britânico é obrigado a pedir a Bruxelas um novo adiamento, que atira o Brexit para o dia 31 de janeiro de 2020. Contudo, alguns membros do Governo levantaram a hipótese de testar “os limites” da nova lei ou até de incumpri-la.
Assim sendo, ou primeiro-ministro anuncia a sua demissão ou tenta avançar para um não acordo, pede a moção de confiança e é forçado a demitir-se.
Falta de medicamentos e desordem pública. É o cenário do hard Brexit
Um documento divulgado pelo Governo britânico prevê um cenário caótico em caso de uma saída desordenada do Reino Unido da União Europeia. O documento de cinco páginas, que pode consultar aqui, refere que as consequências de um hard Brexit podem ser catastróficas.
Embora alguns detalhes da “Operação Yellowhammer” — o nome dado ao plano de contingência do Reino Unido — já tivessem sido divulgados, sabe-se agora com mais pormenores algumas consequências de uma saída sem acordo como. Falta de medicamentos e alimentos, aumentos dos preços da comida e do combustível e desordem pública são algumas das consequências que preveem um cenário muito conturbado.
“Quando o Reino Unido deixar de ser um membro da União Europeia, em outubro de 2019, todos os direitos e acordos recíprocos com a UE acabam. O Reino Unido reverte totalmente para um estatuto de país de terceiro”, pode ler-se no documento. A divulgação deste documento secreto acontece depois de ter sido aprovada a moção pela divulgação de documentos confidenciais com uma margem de nove pontos.
Esta quinta-feira, a Bloomberg (acesso condicionado, conteúdo em inglês) avança que um tribunal da Irlanda do Norte rejeitou uma ação judicial que alegava que uma eventual saída da União Europeia sem acordo, a 31 de outubro, punha em risco o processo de paz naquela região do Reino Unido. Segundo o juiz, as divergências políticas pertencem ao âmbito da política e não à esfera judicial.
Segundo o juiz Bernard McCloskey, o assunto de sair ou não da UE e, saindo, fazê-lo com ou sem acordo é “inerentemente e inconfundivelmente político”, sendo as divergências de opinião, “alegações e contra-alegações, afirmações e contra-afirmações” parte da disputa nessa esfera. São mesmo, acrescenta o magistrado, “a própria essência do que é aceite e permitido numa sociedade democrática”.
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