• Entrevista por:
  • Helena Garrido e Paula Nunes

A alternativa dos críticos da troika seria uma recessão mais grave, alerta Subir

Subir Lall responde pela primeira vez de forma desenvolvida às acusações de que a troika não resolveu o problema da banca. A estratégia dos críticos, diz, provocaria uma recessão ainda mais grave.

São já várias as criticas à atuação da troika em Portugal, acusando-a de ter ignorado o problema da banca. Desde a avaliação independente do FMI até à recente análise da Comissão Europeia, todos convergem no sentido de dizer que se deveria ter sido mais agressivo na resolução dos problemas do sistema financeiro.

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Subir Lall responde pela primeira vez de forma mais aprofundada aos críticos da troika, desenvolvendo os cenários alternativos e tentando responder a esta questão: quais poderiam ter sido os resultados para a economia, caso se tivesse optado pelos caminhos que quem critica defende? Com o mesmo envelope financeiro, já de si muito elevado. E conclui que a recessão seria muito mais elevada.

O problema que na altura era preciso resolver com urgência era o do financiamento do Estado para que Portugal não passasse de um défice de 10% do PIB para zero de um dia para o outro. O problema de Portugal não era financeiro como o da Irlanda. Mas sim, diz, sabia-se que existia um problema de crédito malparado e deixou-se dinheiro de parte para isso. Os bancos não usaram todo? “Pode levar-se um cavalo até à água mas não se pode obrigá-lo a beber” afirma.

Algumas respostas são deixadas propositadamente longas para se seguir o raciocínio sobre um tema que tem sido muito controverso e que merece aqui pela primeira respostas de um dos responsáveis da troika: a abordagem do programa de ajustamento ao sistema financeiro.

Entramos na última parte da entrevista, que é sobre as críticas à troika. Como sabe, existe a avaliação independente do FMI e recentemente foram divulgadas as críticas da Comissão Europeia. Falou-se muito do sistema bancário. O que aconteceu? Não viram o problema? Não queriam ver o problema? Ou o supervisor não vos mostrou o problema?

A visão retrospetiva das coisas é sempre confortável. Estou consciente que há visões diferentes quanto ao que deve ser a abordagem ao setor financeiro. Primeiro, era claro já a altura em que começou o programa [em 2011] que o crédito malparado (NPL) em Portugal era elevado. Para ser justo isso era reconhecido pelos bancos, pelo supervisor e por nós. Todos tínhamos consciência do problema. A questão é que Portugal não estava perante uma crise do sistema financeiro. Na altura existia um problema orçamental e uma interrupção abrupta na entrada de capital no país. O programa de assistência financeira era de montantes muito elevados, cerca de 45% do PIB, que é uma quantia enorme de dinheiro, muito, muito grande.

Subir Lall, chefe de missão do FMI para Portugal
Subir Lall, chefe de missão do FMI para PortugalPaula Nunes/ECO

A questão era: o que atacar na altura quando se tem uma grande quantidade de fundos, mas também um défice de 10% do PIB e uma repentina travagem nos fluxos de capital? E quando o sistema financeiro tinha capital?

Claro que foram feitas algumas intervenções e foi posto dinheiro de parte para a banca. Mas o ponto é a questão que se colocava na altura. Vivíamos um momento em que a crise na zona euro estava bastante intensa e que era claro que ia haver uma recessão em Portugal, porque é isso que acontece quando há uma paragem súbita no fluxo de capitais em simultâneo com um grande défice orçamental. Também é claro que tudo isso teria impacto no sistema financeiro, porque com o abrandamento da atividade económica o crédito malparado (NPL) aumenta. E por isso foi posto dinheiro de lado para ser usado pelo sistema bancário, nos planos de capitalização. Era preciso decidir.

Façamos um exercício: o que aconteceria se não existisse o dinheiro para suavizar a redução do défice público? O défice teria passado de 10% do PIB para zero, de um dia para o outro. Isso seria um ajustamento muito, muito grande. O objetivo foi suavizá-lo. Agora suponhamos que decidimos que, simultaneamente, os bancos deveriam ter sido muito mais agressivos na sua desalavancagem. Se, para além da pressão negativa que já existia sobre o crescimento, forçar uma desalavancagem por parte dos bancos, num primeiro momento está a acrescentar pressão descendente sobre a economia. Suponhamos que punha muito mais capital nos bancos e os forçava a livrarem-se dos seus ativos, isso pressionaria em baixa os preços dos ativos, atiraria muito mais empresas para a falência, o que aumentaria o desemprego e reduziria ainda mais a procura. Isso tornaria o crescimento mais baixo e atingiria novamente os bancos através de mais e novos créditos problemáticos. Perante tudo isto é necessário tomar uma decisão.

Subir Lall, chefe de missão do FMI para Portugal
Subir Lall, chefe de missão do FMI para PortugalPaula Nunes/ECO

Olhando para trás é fácil dizer que deveríamos ter feito isto ou aquilo, porque o problema permanece. Sim, mas se a recessão acabasse por ser ainda mais profunda o problema teria sido maior. A estratégia de redução do défice estaria ameaçada, porque se a economia continuasse a abrandar, a consolidação orçamental possível seria limitada.

Levo em conta o que os críticos da estratégia dizem, mas estão a olhar para a questão apenas parcialmente e não para o quadro geral. E certamente nunca avaliam o impacto macroeconómico e ao nível do emprego e do rendimento de uma estratégia agressiva do tipo que defendem. Além disso, nunca respondem à questão de quanto dinheiro mais seria necessário e de onde viria.

Portanto, não recebemos dinheiro suficiente?

45% do PIB é muito dinheiro.

Sim, mas para os problemas que tínhamos…

Foi por isso que lidámos com o problema imediato, mais urgente. E usamos uma estratégia. Mais uma vez afirmo que quanto ao setor bancário, sempre dissemos que os bancos tinham de lidar com o problema do crédito malparado (NPL), especialmente em grande parte nos bancos privados. Foi feita pressão, foi-lhes dada assistência, colocado dinheiro de lado para resolverem o problema. Era claro que o caminho era o da desalavancagem. Mas não queríamos uma desalavancagem que destruísse o capital social e económico do país.

Porque não aprovaram uma abordagem semelhante à do Blackrock na Irlanda?

Porque Portugal não tinha uma crise financeira. A Irlanda teve basicamente uma crise financeira e não de dívida pública. Entraram na crise com um setor financeiro muito grande, onde o problema surgiu inicialmente. Portanto a questão é: vai lidar com o problema que tem? Ou vai usar uma estratégia que funciona muito bem noutro país, mas que não se aplica a este país?

Era claro que o caminho era o da desalavancagem [da banca]. Mas não queríamos uma desalavancagem que destruísse o capital social e económico do país.

Subir Lall

Mas agora vemos que também nós tínhamos um problema financeiro. Tínhamos um problema ao nível da dívida pública, mas também financeiro. O que não tínhamos era dinheiro para lidar com ambos.

Se olharmos para o sistema bancário, a estabilidade financeira foi mantida ao longo da crise e desde então os depósitos mantiveram-se estáveis e os bancos foram adequadamente capitalizados. Provavelmente poderiam ter mais capital. Sim tinham um problema de crédito malparado. Claro que se vivêssemos num mundo com tempo, dinheiro e recursos ilimitados poderíamos resolver todos os problemas ao mesmo tempo. Mas a política económica não é assim, é feita de compromissos, de decisões.
Claro que podíamos ter posto muito dinheiro nos bancos e termos forçado uma desalavancagem, o que teria tido um grande impacto na economia. Mas então como é que lidávamos com o défice orçamental? Porque criámos aqui um problema adicional, porque o défice já era de 10%. Não estou a ver como é que se concilia tudo.

Como sabe os bancos não usaram o dinheiro todo. Porque é que a troika não forçou os bancos a usar o dinheiro?

Há limites para aquilo que podemos fazer. Podemos disponibilizar o dinheiro. Se olharmos para trás, em todos os relatórios dissemos que os bancos tinham de adotar uma abordagem mais rápida para se livrarem do problema do malparado e para desalavancarem. Dissemos que estavam a agir lentamente. É isso que o nosso mandato nos permite fazer. A decisão é dos bancos e dos seus acionistas. O dinheiro estava disponível. Estava lá. Podiam tê-lo usado. Mas provavelmente estavam relutantes em usá-lo porque, com mais dinheiro viria mais escrutínio…

Portanto existe um problema ideológico. [como acusa a avaliação independente do FMI].

Creio que o problema é de governance dos bancos. Por vezes os acionistas não querem abdicar do controlo, não querem enfrentar o problema.

Subir Lall, chefe de missão do FMI para Portugal, com a jornalista Helena Garrido.
Subir Lall, chefe de missão do FMI para Portugal, com a jornalista Helena Garrido.Paula Nunes/ECO

Então não existe um problema ideológico como dizem os críticos?

Os críticos podem dizer o que quiserem. É fácil dizer que deve haver uma razão ideológica porque assim não podemos ter uma discussão com base em argumentos. Assume-se que já há uma posição pré-definida por parte do Estado ou da troika, ou de alguém e é por isso que as coisas foram feitas assim.

É necessário, pelo menos, tratá-los como empresas que agem no interesse dos seus acionistas, que agem para gerar lucros. Se o Estado entrar com a artilharia pesada… Ainda por cima, as regras dos rácios de capital estavam a ser cumpridas e não havia razão para acreditar — tanto nós como o supervisor — que se passava alguma coisa. E não acredito que seja verdade, exceto no caso do banco que sabemos, em que houve fraude. A abordagem correta é identificar o problema e disponibilizar recursos. Ou será que queremos assumir o comando de todos os bancos e consertá-los? Que mensagem é que isso envia às empresas privadas? Pode levar um cavalo até à água, mas não o pode obrigar a beber.

Tal como disse, a abordagem dos bancos foi lenta. Dissemo-lo repetidamente em todos os nossos relatórios, pelo menos no tempo em que aqui estive, que os bancos tinham de ser mais agressivos e que havia margem macroeconómica para o fazer, a partir do momento em que a retoma se deu. Mas não agiram com rapidez suficiente. Para além de enviar sinais, apontar os riscos da sua abordagem, que mais é que uma pessoa pode fazer?

Claro que se vivêssemos num mundo com tempo, dinheiro e recursos ilimitados poderíamos resolver todos os problemas ao mesmo tempo. Mas a política económica não é assim, é feita de compromissos, de decisões.

Subir Lall

É fácil olhar para trás e dizer que se as coisas fossem feitas de forma diferente, o resultado teria sido diferente. Claro que teria sido, mas é preciso olhar para o resultado global, o resultado macroeconómico, orçamental, a confiança no sistema bancário, a estabilidade financeira. Os críticos por vezes esquecem que a estabilidade financeira foi mantida, apesar dos reveses. Vimo-lo o ano passado, no ano anterior e atualmente. Os portugueses continuam a ter confiança nos bancos.

Os críticos diziam que esta foi uma recessão muito profunda no emprego. Mas realmente queriam que fosse ainda pior, quando defendem que o foco do programa deveria ter sido o sistema financeiro e não a frente orçamental, quando o problema inicial foi de contas públicas.

A quem devemos atribuir as culpas? À troika, aos supervisores…

Não se trata de atribuir culpas. Isto é uma questão de avançar. Podemos sentar-nos aqui discutir, debater e não chegar a conclusão nenhuma sobre o que poderia ou deveria ter sido feito. E nunca encontrar a resposta certa porque depende dos antecedentes e pontos de vista. A questão é saber o que fazer para andar para frente. Em todos os nossos relatórios falamos disso. Temos de ser prospetivos em relação a isso. Culpar alguém não vai resolver nada. Também temos de ser justos e olhar para aquilo que foi alcançado por Portugal, pelo Governo, pela população em geral. E ter isso em conta antes de fazer uma avaliação muito dura sobre o que poderia ou deveria ter acontecido no passado. É interessante falar sobre isso, mas quando se está no papel de lidar com problemas reais temos de olhar para a frente.

  • Helena Garrido
  • Paula Nunes
  • Fotojornalista

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