Investimento francês em Portugal já vale 18,8 mil milhões e 130 mil empregos

França é o segundo maior investidor estrangeiro de Portugal com mais de 1.700 filiais. Talento, energia e estabilidade fazem do país um destino cada vez mais atrativo para as empresas francesas.

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  • França consolidou em 2025 a posição de segundo maior investidor estrangeiro em Portugal, com um stock de investimento de 18,8 mil milhões de euros e mais de 130 mil empregos.
  • O país absorve cerca de 12% das exportações portuguesas e conta com mais de 1.700 filiais em território nacional, com forte presença na indústria, tecnologia e inovação.
  • Conheça os grupos franceses que mais pesam na economia portuguesa e as empresas nacionais que estão a reforçar a aposta em França.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

As trocas económicas entre França e Portugal mantiveram-se robustas em 2025, apesar do contexto internacional marcado pela incerteza. França é atualmente o segundo maior investidor estrangeiro em Portugal, o terceiro destino das exportações nacionais e o terceiro fornecedor comercial do país.

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Com 18,8 mil milhões de euros em investimento direto estrangeiro, França tem mais de 1.700 filiais em Portugal, responsáveis por cerca de 130 mil empregos, de acordo com o estudo “Por uma Europa mais competitiva – o contributo da parceria franco-portuguesa”, que será apresentado esta sexta-feira na 9.ª Conferência Económica Franco-Portuguesa, na Fundação Calouste Gulbenkian.

França absorve cerca de 12% das exportações portuguesas, o que a coloca na terceira posição entre os mercados de destino das vendas nacionais ao exterior, segundo dados da AICEP citados pelos Conselheiros do Comércio Externo da França (CCEF). Em 2024, as exportações para o mercado francês ascenderam a cerca de 16,3 mil milhões de euros, com os bens industriais a representarem aproximadamente 55% do total, sobretudo material de transporte, máquinas, equipamentos e metais.

Entre os exemplos mais recentes deste dinamismo destacam-se a aquisição do Novo Banco pelos franceses do BPCE por 6,7 mil milhões de euros e o contrato celebrado entre a Alstom e a Infraestruturas de Portugal para o fornecimento de 153 comboios.

No entanto, a presença francesa em Portugal já não se mede apenas pelo volume de capital investido. O país deixou de ser visto apenas como uma base de produção ou execução, assumindo cada vez mais funções de engenharia, tecnologia, inovação e decisão estratégica.

Casos como os da Natixis, Euronext, Airbus ou BNP Paribas ilustram esta transformação. No Porto, a Natixis reúne mais de três mil profissionais em áreas estratégicas anteriormente concentradas em Paris. A Euronext transformou Lisboa e Porto na sua terceira maior plataforma mundial. Já a Airbus estima que um quarto da sua produção global de subconjuntos aeronáuticos seja fabricado em Portugal até 2026.

A indústria automóvel continua a ser um dos principais pilares da presença francesa em Portugal. Além da fábrica da Stellantis em Mangualde e da Horse, em Cacia, operam no país dezenas de fabricantes de componentes automóveis, como a Forvia, Sarreliber, STE Plastic ou o grupo GMD.

Também a Vinci ocupa uma posição estratégica através da concessão dos dez aeroportos nacionais. Na distribuição e retalho, a presença francesa é igualmente expressiva, através de grupos como Decathlon, Auchan, Intermarché e Leroy Merlin.

O setor agroalimentar oferece outros exemplos relevantes. A Lactalis reforçou a sua base produtiva em Portugal, elevando para cerca de 800 o número de colaboradores no país. Já a Auchan inaugurou, em 2025, na Venda do Pinheiro, a sua primeira unidade de produção alimentar a nível mundial.

França é o terceiro maior destino das exportações portuguesas de automóveis e componentes, absorvendo cerca de 1,3 mil milhões de euros em 2024, o equivalente a aproximadamente 19% das vendas externas do setor. Em Mangualde, cerca de 95,5% da produção destina-se à exportação.

Talento, energia e estabilidade atraem investimento

O estudo identifica três fatores que explicam a crescente atratividade de Portugal para empresas e investidores franceses: o país, as pessoas e a plataforma. No primeiro eixo destacam-se a estabilidade institucional, o enquadramento europeu e a abertura ao exterior, fatores que conferem previsibilidade aos investidores.

No segundo, sobressaem as qualificações da população. Portugal apresenta uma das populações mais qualificadas da Europa do Sul, com 43% dos jovens entre os 25 e os 34 anos com ensino superior. O país ocupa ainda a sexta posição mundial em proficiência de inglês, muito acima de França, que surge na 49.ª posição.

Por fim, a dimensão de plataforma assenta na localização atlântica, na ligação privilegiada ao espaço lusófono, nas infraestruturas logísticas — com destaque para Sines — e numa matriz energética em que as fontes renováveis já representam mais de 70% do consumo elétrico.

A qualidade de vida surge igualmente como fator diferenciador. Em 2024, Portugal registou uma pontuação de 7,3 no índice de satisfação com a vida da Comissão Europeia, acima de França, Espanha e Alemanha. A comunidade francesa residente no país ultrapassa já as 60 mil pessoas.

Empresas portuguesas também reforçam aposta em França

A relação económica entre os dois países tornou-se cada vez mais bilateral. O investimento português em França tem vindo a crescer, impulsionado por grupos como a Tekever, que duplicou para 200 milhões de euros o investimento naquele mercado, a EDP e a Powerdot — que anunciou um plano de investimento de 100 milhões de euros para reforçar sua rede de carregamento elétrico.

A Renova reforçou recentemente a sua presença industrial em França com um investimento de cerca de 12 milhões de euros na expansão da unidade de Saint-Yorre. Também a Corticeira Amorim mantém uma presença industrial relevante em Lavardac, abastecendo as indústrias vitícola e do champanhe.

Em 2024, o stock de investimento direto português em França ascendia a cerca de 3,2 mil milhões de euros, colocando Portugal entre os 25 maiores investidores estrangeiros no país.

Há já alguns campeões portugueses a criar valor em França, mostrando que esse caminho é possível para outras empresas portuguesas.

Fabrice Segui

CEO do BNP Paribas Portugal

Há já alguns campeões portugueses a criar valor em França, mostrando que esse caminho é possível para outras empresas portuguesas“, afirma Fabrice Segui, CEO do BNP Paribas Portugal, citado no estudo.

Tratado do Porto abre nova fase da relação bilateral

Para os autores do estudo, a relação entre França e Portugal assume hoje uma relevância acrescida num contexto europeu marcado pela reindustrialização, pela transição energética e pela necessidade de reforçar a soberania estratégica.

“A relação franco-portuguesa reúne atributos raros: confiança política, densidade humana, presença empresarial, complementaridade económica e capacidade de projeção europeia e internacional”, afirma Pierre Debourdeau, managing partner da Eurogroup Consulting Portugal.

A relação franco-portuguesa reúne atributos raros: confiança política, densidade humana, presença empresarial, complementaridade económica e capacidade de projeção europeia e internacional.

Pierre Debourdeau

Managing partner da Eurogroup Consulting Portugal

A assinatura, no Porto, em fevereiro de 2025, do Tratado de Amizade e Cooperação entre Portugal e França — conhecido como Tratado do Porto e em vigor desde abril de 2026 — simboliza essa vontade de aprofundar a cooperação bilateral.

Na mesma linha, o protocolo assinado em Paris, em março de 2026, entre o Banco Português de Fomento e a Bpifrance criou uma plataforma institucional destinada a identificar oportunidades de investimento, apoiar a internacionalização das PME e desenvolver mecanismos de cofinanciamento em áreas como a inovação, a sustentabilidade e a competitividade industrial.

Energia, indústria e mercados externos são prioridades

O estudo identifica três áreas prioritárias para o próximo ciclo da relação franco-portuguesa. A primeira é a transição energética. Com um mix elétrico em que as renováveis já cobrem 71% do consumo e com a infraestrutura estratégica de Sines, Portugal reúne condições para se afirmar como uma plataforma digital e energética de escala europeia. A complementaridade com grupos industriais franceses que enfrentam necessidades crescentes de descarbonização continua, porém, subaproveitada.

A segunda prioridade passa pela densificação dos clusters industriais e de engenharia já existentes, transformando a presença de grupos como Airbus, Renault, Forvia ou Transdev em ecossistemas mais completos, com mais fornecedores, investigação e desenvolvimento e funções de maior valor acrescentado.

O terceiro eixo é a atuação conjunta em mercados terceiros, sobretudo nos países lusófonos. A combinação da rede histórica portuguesa em África e na América Latina com a presença global dos grandes grupos franceses poderá criar novas oportunidades de crescimento para ambos os países.

Capacidade de execução é o grande travão à competitividade

Apesar dos progressos, o estudo alerta que o principal risco para o aprofundamento da relação económica franco-portuguesa não está na falta de oportunidades, mas na capacidade de execução.

Os entrevistados (dirigentes de grupos franceses presentes em Portugal, responsáveis de empresas portuguesas com presença em França, e interlocutores institucionais dos dois países) identificam quatro bloqueios estruturais que continuam a afetar a competitividade do país.

Em primeiro lugar, a morosidade judicial e a imprevisibilidade regulatória, que aumentam o risco para investidores e reduzem a previsibilidade nas decisões de longo prazo. Segue-se o licenciamento lento, com resultados incertos, sobretudo em projetos industriais e de infraestruturas.

Destacam ainda as fragilidades na ferrovia e na mobilidade, que limitam a integração em cadeias de valor mais sofisticadas e a atração de talento. Por fim, a pressão crescente sobre a retenção de talento qualificado, num contexto em que a procura aumentou com a expansão de hubs internacionais, sem resposta equivalente em habitação acessível e transportes eficazes.

Para responder a estes desafios, o estudo propõe uma agenda assente em cinco prioridades: apostar em setores e funções de maior valor acrescentado; articular políticas de talento, habitação e mobilidade; acelerar a integração das PME portuguesas nas cadeias de valor francesas; reforçar clusters onde energia, inovação e talento já coexistem; e eliminar os principais bloqueios à execução, reforçando a previsibilidade regulatória e a capacidade de resposta do Estado.

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