Acordo no Irão é “importantíssimo”, mas repercussões na economia real podem demorar trimestres ou anos
Representantes empresariais avisam que consequências do conflito não terminam com anúncio do acordo de paz. Economistas veem efeito "muito positivo", mas explicam que ainda há "risco" diplomático.
Quase quatro meses após o início da guerra no Médio Oriente, o tão esperado acordo de paz com o Irão foi anunciado — como se tornou habitual — por Donald Trump numa publicação nas redes sociais e a um fim de semana. A reação nos mercados foi imediata, com os investidores a aplaudirem o anúncio do (princípio do) fim do conflito. Os representantes empresariais destacam que trata-se de um acontecimento “importantíssimo” para devolver a estabilidade, mas alertam que uma crise destas tem sempre repercussões na economia e na indústria que se prolongam, podendo durar vários trimestres, ou anos.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
“Navios do mundo, liguem os vossos motores. Deixem o petróleo fluir!”, escreveu Trump, na sua rede social Truth Social. Horas depois do anúncio do acordo, já esta segunda, o presidente norte-americano adiantou que espera que o Estreito de Ormuz, por onde passava cerca de 20% do petróleo consumido globalmente, esteja totalmente aberto até sexta-feira.
Depois de meses de conflito, que atiraram os preços do petróleo acima dos 100 dólares e problemas na cadeia de abastecimentos, além do impacto nos preços — o BCE anunciou na semana passada a primeira subida de juros desde 2023 para conter a inflação — , as empresas respiram de alívio, ainda que conscientes que o fim do conflito não é sinónimo de regressar ao mesmo ponto onde se encontravam no final de fevereiro.
“Um choque desta magnitude tem sempre repercussões que se prolongam para além da duração do próprio conflito. As consequências do conflito nas cadeias de abastecimento, no comércio de energia e no financiamento não desaparecem no momento em que o acordo é assinado. Tratam-se de ajustamentos estruturais que demoram tempo a ser absorvidos“, avisa Luís Miguel Ribeiro, presidente da AEP.
O responsável reconhece que o acordo, cujos detalhes serão negociados nos próximos 60 dias, constitui “um sinal positivo, na medida em que reduz os níveis de risco e aumenta a previsibilidade, dois fatores essenciais para a recuperação da atividade económica“. “Este efeito é particularmente relevante na economia europeia, que foi fortemente afetada pelo conflito devido à sua elevada dependência energética”, afirma.

Quanto aos custos suportados pelas empresas, Luís Miguel Ribeiro nota que “é expectável que os preços da energia, em particular do petróleo, venham a registar uma correção significativa com o alcance de um acordo de paz, possivelmente de forma mais rápida do que noutros bens e serviços”, mas “a convergência para níveis anteriores ao conflito poderá demorar“. “A destruição de infraestruturas energéticas, nomeadamente no setor do gás, introduziu constrangimentos do lado da oferta que podem persistir durante algum tempo”, justifica.
O presidente da AEP adianta que “houve investimentos que ficaram adiados ou mesmo suspensos devido ao conflito“. “O aumento dos custos energéticos e logísticos, bem como o agravamento das condições de financiamento, levaram muitas empresas a adotarem posturas mais cautelosas”, explica, acrescentando que “o fim do conflito tende a desbloquear decisões por parte das empresas”. “O alcance de um acordo de paz contribui para um aumento da estabilidade e da previsibilidade, fatores essenciais para a formação de expectativas empresariais mais favoráveis e, consequentemente, para a retoma de decisões de investimento e expansão”, acrescenta Luís Miguel Ribeiro.
Aurélio Caldeira, diretor-geral da ANIMEE — E – Associação Portuguesa das Empresas do Setor Elétrico e Eletrónico, realça que “o que existe hoje é ainda muito frágil e não deve ser ainda considerado como um verdadeiro acordo de paz, mas um memorando de entendimento em fase final”. “O acordo prevê o fim imediato do conflito, seguido de 60 dias de negociações sobre o programa nuclear iraniano, e é precisamente aqui que reside o principal risco de colapso do processo”, destaca.
Se o acordo de paz se revelar duradouro, o cenário mais provável é uma recuperação em duas velocidades: os mercados financeiros podem reagir positivamente num horizonte de dias, semanas, como já se observou com a descida do preço do petróleo e a melhoria do sentimento dos investidores após os anúncios de paz, mas a economia real, a indústria, comércio, emprego e investimento necessitará de vários trimestres ou anos para recuperar.
Para o representante do setor elétrico e eletrónico, “se o acordo de paz se revelar duradouro, o cenário mais provável é uma recuperação em duas velocidades: os mercados financeiros podem reagir positivamente num horizonte de dias, semanas, como já se observou com a descida do preço do petróleo e a melhoria do sentimento dos investidores após os anúncios de paz, mas a economia real, a indústria, comércio, emprego e investimento necessitará de vários trimestres ou anos para recuperar”.
Aurélio Caldeira refere que “se o acordo de paz se revelar duradouro, é provável que o petróleo regresse gradualmente aos níveis pré-conflito num horizonte de 6 a 12 meses, mas dificilmente veremos uma normalização imediata dos preços da energia. Com o gás natural é estruturalmente diferente, porque o ponto de partida é mais sombrio, com a destruição severa de infraestruturas críticas no Golfo prevê-se que os preços europeus permanecerão elevados por um período mais longo”, alerta, acrescentando que “o acordo pode terminar com a guerra, mas não reconstrói os pipelines de uma semana para a outra”.
Para o diretor-geral da ANIMEE, estamos numa fase em que “a economia global evita o cenário de “catástrofe”, mas não regressa ao “normal”, já que as empresas continuarão a enfrentar durante vários meses um ambiente de elevada incerteza”.
“Quanto ao custo real [da guerra] para as empresas, a resposta honesta é que dificilmente o saberemos com precisão, já que os impactos são sobretudo indiretos e propagam-se através da erosão da economia: menor confiança, investimento adiado, energia mais cara, financiamento mais oneroso, cadeias de abastecimento reconfiguradas. O custo final será muito superior ao que hoje é possível quantificar”, lamenta. E avisa: “As empresas não reativam investimentos com base num memorando de entendimento, reativam-nos com base em estabilidade sustentada e previsibilidade regulatória, condições que hoje não existem“.
“As empresas já não gerem crises, gerem uma sucessão permanente de crises. O mundo empresarial não teme apenas os choques, teme sobretudo a sua imprevisibilidade, sendo que essa imprevisibilidade deixou de ser episódica para se tornar sistémica. Para setores, como o nosso, que dependem de horizontes de investimento longos, de cadeias de valor globais e de regulação estável, este é o custo mais duradouro desta guerra: a morte lenta da previsibilidade estratégica”, destaca, notando que para quem investe com horizontes de 5 a 10 anos, “esta é a verdadeira crise: não o choque em si, mas a certeza de que o próximo já está a caminho”.

O setor dos componentes automóveis é outro dos que sofreu, e continua a sofrer, com a guerra. Para José Couto, presidente da AFIA – Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel, “a ser verdade que vão assinar um acordo, é altamente positivo para a economia mundial”. Dito isto, uma situação de normalidade não deverá acontecer “de um momento para o outro”. “Vamos ter de gerir e digerir esta situação”.
“Há todo o petróleo que tem de entrar na Europa. O que está a acontecer está a dar força para baixar os preços, mas há outras matérias-primas que não baixarão de um momento para o outro. Muitas empresas fizeram stocks de segurança a preço pós-crise. Não podem baixar os preços”, nota.
Perante esta situação, José Couto diz que “há forças diferentes”. “O próprio consumo vai passar um período de nojo. Os consumidores estão preocupados com todas estas crises”, refere, notando que “o setor automóvel tem uma queda de procura” e “é normal que não tenha um efeito tão rápido”. “Pode demorar ano e meio a dois anos a estabilizar e ultrapassar [esta crise] até atingir uma evolução calma até à normalidade”, contabiliza.
Em cima da crise que o setor já vivia, José Couto destaca que as empresas enfrentaram um “aumento de custos significativos para a produção, com efeito significativo para a procura que levou os preços a aumentarem”. “Bom, bom era esperar um ano igual ao ano anterior”, reconhece, lembrando que 2025 já foi um ano de quebra.

Apesar da guerra, o setor da metalomecânica e da metalurgia, o campeão das exportações nacionais, com vendas acima de 24 mil milhões de euros, tem conseguido aumentar as exportações. Segundo Rafael Campos Pereira, vice-presidente executivo da Associação dos Industriais Metalúrgicos, Metalomecânicos e Afins de Portugal (AIMMAP), mesmo com guerra, as exportações da indústria cresceram 15% em abril, destacando um aumento homólogo de 19% para os EUA. Dito isto, o acordo é “importantíssimo” para as empresas, realça.
“Conseguimos manter crescimento nos mercados mais exigentes”, refere Rafael Campos Pereira, considerando que o acordo é “um sinal importante para estabilizar e continuar a crescer“.
Sobre novos investimentos, o responsável destaca que as empresas já tinham deixado em pausa projetos antes da guerra, notando que estavam a braços com “várias guerras, nomeadamente o ataque russo à Ucrânia, problemas no Médio Oriente”, situações que não dão confiança para investir. Deixando ainda uma crítica a Bruxelas, a quem tem alertado para o impacto negativo das tarifas nas importações de aço, o vice-presidente da AIMMAP alerta que a legislação na Europa está a caminhar “rumo ao precipício”.
Economistas alertam para “risco” de ser apenas “pseudo-acordo”
O economista Óscar Afonso afirma que este acordo vai ser positivo para Portugal, embora os efeitos sejam graduais e dependam das próximas etapas, nomeadamente o processo de desminagem do Estreito de Ormuz. “Vai depender de o acordo ser efetivamente implementado e as sanções realmente levantadas, porque isto agora é um pseudo-acordo”, ressalva o diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP).
Óscar Afonso antecipa combustíveis mais baratos, uma redução da inflação e, consequentemente, menor pressão para aumentar os juros, o que tem especial influência em Portugal, “porque temos as empresas e famílias muito endividadas”. O professor catedrático da FEP lembra que, no imediato, observa-se uma redução do prémio de risco no mercado de petróleo, que leva à queda do barril de Brent, bem como a valorização dos mercados financeiros.
De facto, a cotação do crude do Mar do Norte caiu quase 5% para 83 dólares por barril e a maioria das bolsas europeias – à exceção do PSI, que ficou penalizado pelo recuo da Galp – fecharam a sessão desta segunda-feira em terreno positivo, acompanhando a tendência verificada nas praças asiáticas e em Wall Street.
Há uma dinâmica de transição para o novo equilíbrio e para um estado estacionário, que se espera que seja como estava antes. Os mercados acionistas tendem logo a reagir positivamente quando diminui o risco sociopolítico, como é o caso. Logo, há maior confiança dos investidores, uma possível valorização das bolsas internacionais e menor procura por ativos do refúgio, como o ouro e o dólar, mas também o euro.
O problema é que, segundo fontes da agência noticiosa Reuters, garantir que o Estreito de Ormuz está livre de minas pode atrasar o regresso ao tráfego marítimo normal por semanas. O trabalho com navios caça-minas e drones subaquáticos especializados pode arrastar-se durante 40 a 50 dias até que as empresas se sintam prontas (e seguras) para continuar as operações.
“Vai demorar algum tempo a restabelecer, mas num prazo não muito demorado resultará em menor custo dos combustíveis, redução no custo do transporte e de produção e menor pressão inflacionista em muitos países importadores de energia, onde se inclui Portugal. A energia mais barata costuma traduzir-se em menor inflação e, consequentemente, menor necessidade da subida de juros por parte dos bancos centrais. No fundo, há um ambiente mais favorável ao crescimento económico. É o reverso da estagflação”, sintetiza Óscar Afonso.

O economista António Nogueira Leite considera que o “cenário é muito mais positivo” do que era antes de domingo, nomeadamente para as economias que são consumidoras de petróleo, como as europeias, mas “ainda não é este o momento de passar a luz verde”. O professor catedrático da Nova School of Business and Economics (Nova SBE) adverte que, por enquanto, quaisquer “previsões estão condicionadas”, tendo em conta que dependem do desfecho das negociações para um acordo permanente.
“Há uma assinatura do acordo, portanto é um bocadinho mais do que só ter um papel que circula no espaço. É um primeiro passo, mas depois há um conjunto de temas que têm ainda que ser negociados. Acho que os mais difíceis são os que têm a ver com a parte nuclear, porque essa é uma preocupação já antiga e muito relevante. O estado iraniano não é confiável, como os outros estados nucleares, com exceção da Coreia do Norte”, adverte.
Para António Nogueira Leite, 60 dias para negociar “é pouco”, sobretudo se compararmos com o acordo nuclear com o Irão rubricado em 2015, após cerca de dois anos de negociações lideradas pela administração Obama em conjunto com a União Europeia. Ademais, trata-se de um acordo entre países que não têm um “histórico de bom comportamento” pré e pós-negocial, pelo que existe “risco”.
“Globalmente, é muito positivo, mas é preciso que as estrelas se alinhem na parte não económica para termos efeitos económicos positivos. Isto é tudo no pressuposto de que a parte geopolítica e militar está a funcionar. É o grande ponto de interrogação que se vai desvanecendo (ou não) à medida que formos tendo informação sobre as negociações concretas”, explica o docente da Nova SBE. Caso os players sejam ‘bons alunos’, António Nogueira Leite está convencido de que haverá “alguma aceleração de negócios que possam ter ficado congelados”.
Se houver progresso e chegarmos a sexta-feira com um sinal positivo, e depois as as negociações correrem bem, haverá claramente um alívio, porque deixa de haver razão para este choque do lado da oferta, por via do aumento do preço do petróleo e toda a reação em cadeia, porque o petróleo está na base de muitas coisas que produzimos, apenas transportes e energia.
“Há um efeito que devemos ter em conta e que vai fazer com que a dissipação não possa ser de um momento para o outro: há muitos países que importam do Golfo produtos refinados e adubos. E essas fábricas, ao terem sido atingidas, não são postas em produção de um momento para o outro, portanto vai levar algum tempo até estabelecermos totalmente a normalidade”, conclui o economista.
Enquanto as consequências do acordo entre Teerão e Washington não são 100% previsíveis – até porque os próximos três dias serão cruciais para perceber se o Estreito de Ormuz será “totalmente” reaberto – resta-nos elencar vencedores e vencidos. Na opinião de Óscar Afonso, quem ganha são os países importadores de petróleo (Estados-membros da União Europeia ou nações do Sudeste Asiático), as empresas industriais, de transporte e de aviação e os consumidores.
E também o Irão e seus parceiros económicos, entre os quais estão a China, a Turquia, os Emirados Árabes Unidos ou a Índia. “Se os fundos que o Irão tinha congelados forem libertados, fica com mais recursos para poder aumentar as exportações de petróleo e utilizar também para investimento e reconstrução, o que também favorece a economia iraniana e irradia nos seus principais parceiros”, diz o diretor da FEP.
Por outro lado, mais prejudicados os países exportadores de petróleo como o Brasil ou Angola e as petrolíferas, que dependem dos preços do petróleo elevados e estavam a beneficiar do petróleo caro.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Acordo no Irão é “importantíssimo”, mas repercussões na economia real podem demorar trimestres ou anos
{{ noCommentsLabel }}