BRANDS' ECO Portugal tem de recuperar décadas de atraso na defesa
Segurança, resiliência e soberania voltaram a ganhar peso no contexto geopolítico atual. Mecanismos de financiamento já existem, mas o país tem de ser “mais rápido e eficiente”, defendem especialistas
“Estamos hoje mais bem preparados para investir na defesa”. A opinião de José Neves reflete a mudança de paradigma que está a acontecer neste setor que, até há pouco tempo, era olhado como um custo político, e que começa a ser visto como um ativo económico estratégico. O presidente do AED Cluster Portugal foi um dos oradores convidados para o debate sobre ‘Financiamento na Defesa: Instrumentos e oportunidades’, durante a conferência ‘A nova economia da Defesa’, promovida pela sociedade de advogados PLMJ.
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No entanto, e após décadas de inércia, Portugal enfrenta agora a pressão de recuperar terreno numa área em que a velocidade conta tanto como a capacidade industrial. A urgência é bem visível, como sublinhou Niklas Koerner, partner da FABER, uma empresa de capital de risco. “Segurança, resiliência e soberania tornaram‑se prioridades económicas”, disse, e os mecanismos de financiamento, públicos e privados, já estão disponíveis para quem conseguir responder primeiro.
Hoje existe uma normalização da defesa. Há cinco anos ninguém nos queria ouvir
Ainda assim, o país parece continuar preso à dificuldade estrutural de transformar intenção em execução. “Hoje existe uma normalização da defesa. Há cinco anos ninguém nos queria ouvir”, completou José Neves, mas isso exige que empresas e Estado sejam “mais rápidos e eficientes” para não perderem uma janela de investimento que não voltará a abrir‑se.
A guerra na Ucrânia, a pressão sobre a soberania tecnológica e a necessidade de autonomia estratégica trouxeram um novo ciclo de investimento, em torno do qual convergem fundos privados, Estados e instituições europeias.
José Neves sublinha que os contratos públicos passaram a ser mais longos e previsíveis, permitindo às empresas captar capital com outra segurança. “Um contrato de dois ou três anos passou a ser um contrato de 10, 20 ou 30 anos”. Esta estabilidade é fundamental para atrair investidores internacionais, que procuram setores com horizonte de retorno alargado.
Do lado do capital de risco, a transformação é igualmente profunda. NiklasKoerner recorda que durante anos o investimento em tecnologias de defesa foi travado por critérios ESG. “Investir nestas tecnologias relacionadas era difícil, mas isso mudou”, garante.
A verdade é que não falta capital para investir entre os venture capitalists, apontou o responsável da FABER que recordou que, só em 2023, a Europa canalizou cerca de 20 mil milhões de euros para investimento em deep tech, o que representa cerca de 30% de todo o investimento de venture capital. No caso da defesa, antes vista como nicho, o potencial de investimento é enorme, uma vez que se tornou um hot topic, quer para fundos especializados, quer para generalistas.
Se eu quiser construir uma fábrica de munições em Portugal, não tenho apoio da União Europeia
Estado tem um papel importante
Mas o entusiasmo privado para investir não dispensa o papel do Estado. Ricardo Pinheiro Alves, presidente da idD Portugal Defence, lembra que o país passou por “20 ou 30 anos de investimento muito limitado”, e que a prioridade é integrar a indústria nacional nos grandes programas financiados pelo SAFE, o instrumento de financiamento europeu que atribuiu a Portugal 5,84 mil milhões de euros até 2030. Ainda assim, alerta para um equívoco recorrente. “Se eu quiser construir uma fábrica de munições em Portugal, não tenho apoio da União Europeia (UE)”. A UE financia sobretudo projetos de uso duplo (militar e civil), enquanto a defesa puramente militar continua dependente de orçamento nacional.
Sobre os instrumentos de financiamento, Ana Marta Castro, sócia da Vieira de Almeida & Associados, aponta a complexidade como um entrave às candidaturas de muitas empresas nacionais. Este processo, disse, “exige estratégia, e as empresas devem saber escolher o programa certo para o seu grau de maturidade”. Por exemplo, a advogada recomenda que startups devem focar-se no Fundo Europeu de Defesa, orientado para Investigação & Desenvolvimento (I&D), enquanto indústrias com capacidade instalada devem olhar para o EDIP (European Defence Industry Programme), que financia a expansão produtiva. Neste programa, a UE disponibiliza 1,5 mil milhões de euros (2025-2027) para apoiar a industrialização, o escalonamento produtivo e compras conjuntas na área da defesa. Ao contrário de outros fundos focados apenas em investigação, o EDIP financia diretamente o crescimento das linhas de produção.
Rita Gregório, sócia da PLMJ e especialista em auxílios de Estado, confirma que “a Comissão já não olha para os apoios como travão”. As notificações relacionadas com defesa passam agora a ter prioridade, e investimentos exclusivamente militares podem até ficar excluídos das regras tradicionais. Ainda assim, afirmou que Portugal mantém uma postura conservadora. “O país investe, mas talvez possa investir um pouco mais”, admitiu.
Os participantes neste debate foram, porém, unânimes ao reconhecer que Portugal tem talento, empresas emergentes e inovadoras, e vantagens geográficas no mar, no espaço e na autonomia tecnológica. Mas falta escala, previsibilidade e capital de crescimento. “Os investidores olham para um cenário em que os investimentos vão perdurar pelo menos até 2035”, sublinhou José Neves. A janela de oportunidade existe, mas não ficará aberta para sempre.
Assista ao painel no vídeo abaixo.
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