Lusitano vendido por 20 mil euros em leilão morno na Coudelaria Alter Real

Lina Santos,

O cavalo Gniqui bateu recorde no leilão da Coudelaria Alter Real, mas a venda total ficou abaixo de 2025, num mercado condicionado pela conjuntura internacional.

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  • • Gniqui, um cavalo lusitano nascido em 2011, foi vendido por 20 mil euros no leilão da Coudelaria Alter Real a 24 de abril de 2026, estabelecendo um novo recorde de preço.
  • • O leilão contou com 23 cavalos à venda, dos quais apenas seis geraram interesse, incluindo cinco éguas para reprodução e um macho.
  • • As vendas totais atingiram 75 200 euros, ficando abaixo dos 115 mil euros registados no ano anterior, refletindo um mercado menos dinâmico e uma conjuntura económica desfavorável.
  • • O evento, realizado anualmente desde 1910 em Alter do Chão, atraiu cerca de 3 mil pessoas e compradores de países como África do Sul, Espanha, Itália e Holanda.
  • • A Coudelaria Alter Real, fundada em 1748 e gerida pela Companhia das Lezírias, tem como missão a preservação do património genético do cavalo lusitano, do árabe e do Sorraia.
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Gniqui chegou ao leilão da Coudelaria Alter Real, esta sexta-feira, em boa posição para ser um dos mais desejados da tarde. Dos 23 cavalos à venda, tinha o valor mais alto de arranque: 20 mil euros. E era certamente aquele que gerava mais expectativa. Este lusitano passou pela Escola Portuguesa de Arte Equestre e fazia um dos números dos espetáculos. As previsões confirmaram-se, mas as vendas ficaram aquém do previsto.

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Quando finalmente entrou na carrier, o retângulo perfeitamente delimitado onde os equídeos mostram o que valem, Gniqui, castanho e brilhante, foi apresentado à audiência de cerca de 3 mil pessoas ocupava as bancadas da Coudelaria Real, muitas com uma filha A4 na mão com as características dos cavalos à venda. A estrela da tarde é um lusitano nascido em 2011, filho de Que Joli e da Borboleta, dois exemplares da casa. “Não podemos guardar todos, na escola temos 60. Este cavalo é o mais arranjado dos meus últimos 20 anos de leilões e daí o valor de base e licitação”, disse o speaker, António Vicente, justificando a venda. Não houve disputa, mas houve interesse. Da plateia levantou-se a raquete 26, que o levou por 20 mil euros. A audiência aplaudiu na direção da compradora, oriunda da África do Sul, apurou o ECO.

Gniqui foi vendido por 20 mil euros no leilão de 24 de abril de 2026 na Coudelaria Alter Real


A venda de Gniqui é um recorde.
Em 2025, o cavalo mais caro foi vendido por 18 mil euros. Mas o leilão foi morno e as vendas, que totalizaram 75 200 euros, ficaram abaixo do esperado para o dia (há um ano tinha sido de 115 mil euros).

Dos 23 cavalos apresentados, 21 lusitanos e dois árabes, apenas seis geraram interesse – cinco éguas, preparadas para a reprodução, e um macho. “A economia está perturbada e o mercado do Médio Oriente também. Estão a comprar mas a deixar aqui”, diz ao ECO Eduardo Oliveira e Sousa, o presidente da Companhia das Lezírias, que gere a Coudelaria Alter Real. “Se a economia estivesse bem estariam na mira dos compradores”, considera.

O arranque até foi auspicioso, após o hino nacional tocado pela centenária Banda Municipal Alterense. São quase 15.30 e estão 24 graus de temperatura. Salina entra em pista montada por um dos finalistas do curso de gestão equina da escola profissional que funciona dentro da Coudelaria Alter Real, com um preço base de 17500 euros e logo surgiu um interessado. Depois uma licitação de 100 euros e ainda outra de mais 100 euros. Acabaria por ser arrematada por 17700 euros, o segundo valor mais alto da tarde, por um comprador online. Ligados desde Espanha, Itália e Holanda, foi para este último país que foram vendidos dois exemplares.

O leilão da Coudelaria de Alter realiza-se pelo menos desde 1910, ano da Implantação da República, a cada 24 de abril, coincidindo com as festas de S. Marcos, em Alter do Chão, e impreterivelmente. “Se for dia de Páscoa, é dia de Páscoa”, conta um presente. É uma festa, com rulotes de comida, grupos de amigos e, sem surpresa para quem conhece da coudelaria, turistas. Dentro deste complexo branco com barras pintadas de cor mostarda funciona também o Vila Galé Collection Hotel Real, um hotel que atrai quem aprecia turismo equestre.

Duas horas depois, o leiloeiro João Lemos pousa o martelo, o público acotovela-se para encontrar o melhor sítio para ver a saída das éguas para o campo, “sempre um espetáculo bonito de se ver”, como tinha prometido António Vicente durante o leilão. As fêmeas lusitanas vivem no campo e os potros com elas, entre os 12 meses e quatro anos. Chegam cada manhã, abalam cada tarde.

Professor de genética de cavalos e porcos, António Vicente interrompe o trabalho universitário no Instituto Politécnico de Santarém para, no leilão, contar o melhor de cada animal à venda, nomeadamente a linhagem. Salina, por exemplo, é filha de Rubi, um cavalo que chegou aos Jogos Olímpicos de Londres, com 800 descendentes, um dos orgulhos da coudelaria.

Os ascendentes destes cavalos contam, e muito. Fava Rica, uma égua que ficou por vender, é filha de Viés, um cavalo que morreu prematuramente, mas do qual se conserva “sémen congelado”. De outra: “O seu pai tem sete cavalos ainda a funcionar, o que já diz qualquer coisa sobre as suas características”, destaca. Faz questão de destacar os cavalos que são “negativos à piroplasmose”, uma doença que afeta equídeos e que, em caso positivo, os impede de viajar para alguns países, nomeadamente os EUA. “A Coudelaria tem feito um grande trabalho para a eliminar”, diz Filipa Jácome, CEO da Lusitano World, negociante de cavalos. Dentro da Coudelaria Alter Real funciona também um laboratório de investigação do cavalo lusitano.

Filipa Jácome está acompanhada de um investidor estrangeiro, detentor da coudelaria Garaman Lusitanos, proprietária do Marquês dos Cedros, um garanhão montado pelo cavaleiro Vasco Mira Godinho, que conquistou um bom lugar recentemente numa competição em FFrança. “A qualidade era muito boa, há muitos interesse mas ao mesmo tempo não é o momento certo para os comprar”, analisa Peter van der Borst. É uma opinião generalizada entre as pessoas que falaram com o ECO após o leilão. “A conjuntura retrai investidores”, resume Francisco Beja, diretor da Coudelaria Alter Real.

O leilão é uma das fontes de financiamento da coudelaria Alter Real, uma das mais antigas do mundo, fundada em 1748 por D. João V, gerida pela empresa pública Companhia das Lezírias com uma missão: proteger o “património genético do cavalo lusitano”, uma raça autóctone, algumas linhagens do cavalo árabe, e, mais recentemente, também o Sorraia, um cavalo peninsular do qual restam 250 no mundo, 56 dos quais a viver nesta coudelaria. Lusitanos são 360 exemplares, machos e fêmeas, “uma referência mundial”, segundo Francisco Beja. Além da preservação e reprodução, os cavalos que aqui vivem, são, em casos específicos, cedidos protocolarmente à Escola Portuguesa de Arte Equestre, à GNR e a algumas escolas profissionais.

Os cavalos que não foram vendidos na sexta-feira continuam disponíveis para compra. Pelo seu valor de base mais 10%.

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