Rita Serrabulho: “Queria sair do jornalismo, por isso despedi-me e fui para o fundo de desemprego”
Conheceu parte do mundo enquanto jornalista, mas foi na comunicação empresarial que se encontrou profissionalmente. Hoje, Rita Serrabulho é CEO da Amp Associates e partilha, aqui, o seu percurso.
Rita Serrabulho, CEO da AMP Associates e Managing Partner na Political Intelligence, é a 70ª convidada do podcast “E Se Corre Bem?”. O jornalismo marcou o início do seu percurso e permitiu-lhe entrevistar pessoas em vários pontos do mundo. Mas foi apenas anos depois, ao enveredar pela comunicação empresarial, que encontrou a realização profissional que procurava.
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“O jornalismo foi uma fase muito interessante da minha vida. Proporcionou-me a oportunidade de ter um trabalho de sonho, uma vez que fiz inúmeros programas de viagens e tive a oportunidade de conhecer boa parte do mundo. Isso é um enorme privilégio, foi uma experiência única e fantástica, mas eu não me sentia com a alma de jornalista“, começou por dizer.
De facto, Rita Serrabulho nunca sonhou com a ideia de se tornar jornalista, mas foi a própria vida e as suas oportunidades que acabaram por a levar por esse caminho: “Eu formei-me na área de marketing e de comunicação, mas depois tive um convite para fazer um estágio de verão na SIC. Acabei por ficar e gostar da área de comunicação, mas sentia que precisava de me especializar. Então, quando acabei o meu curso, decidi fazer uma pós-graduação em Nova Iorque”.
Essa pós-graduação foi o primeiro “grande salto” da sua vida porque decidiu ir para Nova Iorque “completamente sozinha”, ainda sem dominar a língua inglesa, estudar e trabalhar. “Fui para Nova Iorque estudar comunicação e broadcast, mas mantive um vínculo com a SIC. Tinha que fazer reportagens semanais nos EUA para manter o meu salário e para me deixarem ir. Portanto, além dos estudos, eu tinha que arranjar maneira de conseguir enviar essas reportagens semanalmente para a SIC”, disse.
Ao fim de dois anos, regressou a Portugal e abraçou o projeto que lhe viria a permitir viajar pelo mundo durante 10 anos: “Eu ainda pensei ficar em Nova Iorque porque, do ponto de vista de comunicação, as oportunidades nos EUA, mesmo para televisão, eram imensas. Mas voltei porque tinha arrancado a SIC Notícias e o Nuno Santos, na altura diretor do canal, apresentou-me um projeto, que era fazer um programa de viagens, e disse-me que achava que eu poderia ter o perfil para ele. Aliciou-me e eu decidi vir“.
“Contactar com tantas culturas, tantas pessoas diferentes e tantos países foi um privilégio. Claro que tem sempre um custo do ponto de vista de exigência profissional e pessoal. Eu fiz aquilo entre os 20 e os 30 anos e foi a altura certa porque ainda não tinha muitos compromissos. Claro que estive ausente em muitas datas importantes, mas foi uma escolha. Era exigente porque numa semana estava no Oriente, na semana seguinte estava no Ocidente e, quando estava cá, tinha que editar quase um mês de programas. Eram muitas horas na edição, mas o objetivo era cumprido”, contou.
O objetivo foi cumprido, quer a nível profissional, quer pessoal. Depois de dez anos dedicados ao projeto, Rita Serrabulho sentiu que o seu tempo enquanto jornalista tinha mesmo chegado ao fim: “Foi um ciclo que se fechou e eu não queria mesmo continuá-lo. Queria sair do jornalismo, por isso despedi-me e fui para o fundo de desemprego. Foi um salto no escuro, mas o que eu queria era fazer comunicação empresarial, sabendo já onde é que poderia acrescentar valor”.
Esta clareza sobre aquilo que ambicionava fez com que, apenas dois meses depois de se despedir, conseguisse um emprego como diretora de marketing e de comunicação numa tecnológica. “Concorri a uma vaga, num processo normal, e entrei numa vaga de tecnologias. A partir daí, fiz um percurso com dois gestores extraordinários, muito inovadores. Eles investiam em várias áreas de vanguarda tecnológica em Portugal e, na altura, tinham desenvolvido um projeto para criar apps para telemóveis como ferramentas. Hoje usamos isso para tudo, mas na altura tínhamos de ir apresentar a ideia às empresas e de a mostrar ao mercado. Eu aprendi muitíssimo com eles, até porque me deram a vertente comercial, que é muito importante para a comunicação”, referiu.
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Rita Serrabulho, CEO da AMP Associates e Managing Partner na Political Intelligence, no 70º episódio do podcast "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
Rita Serrabulho, managing partner da Political Intelligence em Portugal, em entrevista ao podcast do ECO "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
Rita Serrabulho, managing partner da Political Intelligence em Portugal, em entrevista ao podcast do ECO "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
Rita Serrabulho, managing partner da Political Intelligence em Portugal, em entrevista ao podcast do ECO "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO
Nesta empresa, trabalhou com diferentes setores de atividade que a levaram a alargar conhecimentos e, até, a receber uma nova proposta de emprego: “No âmbito das funções que tinha, trabalhava muito com o setor do turismo e fui assistir a uma conferência em Espinho. Aí encontrei a Cecília Meireles, que tinha acabado de ser nomeada secretária de Estado do turismo. Conversamos sobre o setor e tivemos logo uma afinidade interessante. Na altura, ela só fez a abertura da conferência e foi embora, mas eu achei que a informação foi tão relevante que tomei a iniciativa de lhe enviar um email a partilhar o que havia sido discutido. Passado 15 dias, ela ligou-me e perguntou-me se eu teria interesse em ir para a área da comunicação do turismo em Portugal“.
Mais uma vez, Rita Serrabulho estava perante outro “grande salto” na sua vida, desta vez para a comunicação governamental. “Eu sempre gostei muito de política, mas não era esse o foco. O foco estava em como podia contribuir com as minhas competências de comunicação para apoiar esta governante, para que ela pudesse decidir e comunicar bem com os diferentes stakeholders. Mas isso é um tremendo desafio porque o gap entre aquilo que é a perceção que chega ao cidadão comum e aquilo que é feito dentro de um ministério, muitas vezes é gigante“, reconheceu.
Apesar do desafio, a agora CEO garante que esta foi “uma experiência única, muito intensa” e acrescenta “que quatro anos de governo equivalem a dez anos de qualquer outra coisa“. No seu caso, esta intensidade sentiu-se com ainda mais vigor porque atravessou o período da Troika e viu muitas empresas portuguesas “a morrer”. Mas, curiosamente, foi precisamente isso que a levou a ter a ideia que viria a criar o seu negócio: “Vi muitas empresas a irem para fora para tentar sobreviver, mas percebi que não tinham uma estrutura de comunicação que as ajudasse a comunicar nos seus novos mercados e pensei por que não ser eu a ajudar estas empresas a comunicarem nos mercados estratégicos estrangeiros”.
“Portanto, continuei o meu trabalho, mas fui estruturando em mim este projeto e pedi a minha exoneração. Fui exonerada no dia 16 de março de 2015 e no dia 18 de março arranquei com o projeto AMP Associates, que é um diminutivo de amplificar. Hoje, a AMP tem mais duas empresas e já somos mais de 20 profissionais”, continuou, acrescentando que os CEO a quem foi apresentando o seu projeto a receberam “muito bem”, uma vez que tinha deles “as necessidades bem identificadas” e apresentava-lhes uma proposta de valor “muito interessante”, que consistia em “prepará-los para comunicar com mercados que lhes eram estratégicos e trazer os media desses mercados até eles”.
A par do nascimento deste projeto, Rita Serrabulho foi fazendo um conjunto de roadshows internacionais “para poder identificar alguns parceiros estratégicos”. Ao fim de quatro anos, acabou por desenvolver alguns projetos no âmbito de public affairs. “Algumas destas empresas começaram a ter necessidades de public affairs em Portugal e fomos tendo alguns projetos. Mas houve uma delas, a Political Intelligence, que começou a fazer isso de forma mais contínua ao ponto de quererem abrir um escritório em Portugal. Lançam-me esse desafio e foi assim que abrimos a primeira agência de lobbying em Portugal, há 10 anos atrás“, explicou.
Mesmo reconhecendo que o lobby ainda é um tema delicado para muitos, a CEO defende que, havendo transparência, pode ser uma forma de tornar “Portugal mais confiável e um país para os investidores e para as empresas”. Hoje, enquanto presidente da Associação de Public Affairs Portugal, afirma que ainda “há muito caminho a fazer e vai demorar tempo”, mas reforça que “é preciso que as associações, como a Public Affairs, entre outras, comecem a atuar no âmbito da nova lei, que obriga a que haja um registo público de quem é que reuniu com quem. Acho que vai ser uma fase curiosa e estou expectante para perceber como é que a sociedade e os seus diferentes stakeholders vão reagir à atuação dentro desta lei”.
“O meu propósito é a questão empresarial, fazer com que funcione, que dê uma boa resposta e entrega às necessidades dos meus clientes. Mas se eu puder contribuir para que o nosso país e a nossa sociedade possam usufruir disso, quer do ponto de vista da comunicação, quer do ponto de vista de public affairs, dando voz às empresas, aos líderes e ao talento português, isso é algo que me satisfaz muitíssimo“, concluiu.
Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan.
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