BRANDS' ECONTAS Compliance Talks: O papel da IA na contabilidade
O papel da IA na aceleração de processos e os desafios que se apresentam na sua utilização, principalmente nas áreas contabilística e fiscal, foram o mote do 1º episódio da Compliance Talks.
A Inteligência Artificial tem vindo a ter um crescimento exponencial nos últimos tempos, de tal forma que acompanhá-la não tem sido fácil para muitos setores e respetivos profissionais. Agora, mais do que perceber como esta tecnologia pode e deve ser usada, importa saber qual o papel que esta terá no futuro.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
No primeiro episódio do podcast Compliance Talks, da Sovos Saphety, Arlindo Oliveira, Presidente do INESC, e Valter Pinho, Solution Principal da SOVOS, explicam os desafios, mas também as oportunidades que o uso da IA pode trazer na agilização de processos, principalmente nas áreas contabilística e fiscal.
“Fala-se muito da IA, mas a IA tem de ser aplicada nas áreas que são relevantes à criação de valor nos processos de negócio. Isto são processos complexos e, tendo em conta que estamos a passar por uma crise de sucessão, é importante fazer aqui uma verticalização ao ecossistema da contabilidade – os contabilistas, os revisores oficiais de contas. Esta é uma classe que está num processo de transformação, que tem um conjunto de práticas já envelhecidas e que precisa de pessoas que conheçam mais tecnologia e que viveram e cresceram com a tecnologia“, começou por dizer Valter Pinho.
Apesar de Arlindo Oliveira concordar com a necessidade de automatizar alguns processos, alertou para um problema bastante comum que dificulta bastante o uso das novas tecnologias: “A utilização eficaz da tecnologia em processos de negócio depende dos processos estarem bem estruturados, isto porque a IA não vai com um papel na mão à sala ao lado levar um carimbo, nem vai ler uma coisa que está escrita à mão num post-it algures. Portanto, se o processo não estiver bem estruturado, embora o potencial da tecnologia esteja lá, é difícil”.
Estruturação de processos facilita digitalização
Para que se observem os resultados da utilização da IA como aliada é, então, preciso que os dados estejam bem estruturados e que todos os responsáveis por eles sigam, sem exceção, todos os processos. “Quando os processos estão mal estruturados, a IA só dá uma pequena ajuda. E eu acho que este é um fator que vai tornar mais demorada a adoção eficaz de IA“, continuou.
Este atraso, de acordo com Valter Pinho, deve-se também ao facto dos “use cases da adoção de IA no meio empresarial ainda estarem muito nos primórdios”, ou seja, as empresas ainda estão numa fase em que procuram ter IA nos processos tradicionais, por exemplo num processo de cruzamento de dados: “Imaginemos que eu preciso de cruzar dados contabilísticos com dados que estão a ser emitidos nos sistemas transacionais de faturação. Este era um processo que obrigava o contabilista a ir falar com o informático, mas agora está a mudar. Com a IA e o uso de um Chatbot, podemos fazer este processo de forma mais simplificada, o que acelera o processo“.
A digitalização de processos é, por isso, fundamental para simplificar várias funções e, principalmente, para responder às necessidades do mercado. “Esta digitalização de processos permitiu-nos, por exemplo, termos o IRS automático. E isto aconteceu através de um processo de integração, de interoperabilidade e de centralização de informação, através de uma legislação. A IA é um acelerador e pode ajudar muito a fazer migração de tecnologia, alterando produtos atuais e fazendo adaptação desses produtos às necessidades que nos são colocadas no mercado, o que até há muito pouco tempo não era possível“, explicou o Solution Principal da SOVOS.
-
Valter Pinho, Solution Principal da SOVOS, e Arlindo Oliveira, Presidente do INESC, no 1º episódio do podcast Compliance Talks - Inteligência Artificial na Fiscalidade -
Arlindo Oliveira, Presidente do INESC -
Valter Pinho, Solution Principal da SOVOS -
Valter Pinho, Solution Principal da SOVOS, e Arlindo Oliveira, Presidente do INESC, no 1º episódio do podcast Compliance Talks - Inteligência Artificial na Fiscalidade
No entanto, apesar de a legislação ser necessária para que estes processos possam acontecer, Arlindo Oliveira realçou “o impacto negativo que as frequentes alterações legislativas têm nas empresas e instituições”: “Os legisladores nunca consideram o impacto negativo que até alterações pontuais e, muitas vezes, efémeras, têm nas empresas. Mesmo coisas simples, como decidir alterar as taxas de retenção em dois meses, ou fazer um pagamento extraordinário num mês, dão imenso trabalho às instituições e às empresas e não devia ser feito“.
“Há sistemas que podem ajudar as pessoas a acompanhar as rápidas alterações. Eu não recomendo perguntarem ao ChatGPT, mas há sistemas especializados que poderiam dar aconselhamento gratuito e acessível a toda a gente, sempre com a salvaguarda de que a pessoa deve confirmar aquilo. Por isso, eu recomendaria fortemente que a Autoridade Tributária pensasse em ter um sistema de aconselhamento ao público baseado na legislação e na jurisprudência. Tenho a certeza que esse sistema teria um enorme valor acrescentado pela possibilidade de as pessoas poderem fazer perguntas”, sugeriu o Presidente do INESC.
A mesma opinião foi partilhada por Valter Pinho, que acrescentou: “A interpretação da lei e das regras é algo que não é muito fácil de determinar. Uma das coisas que se podia fazer, e que já se faz noutros países, é uma tentativa de ligar estes sistemas de aconselhamento a modelos mais computacionais e a linguagens específicas do domínio. Deveria haver aqui um consórcio e uma conversa mais profunda para haver uma integração entre estes dois mundos“.
A IA ameaça o futuro dos contabilistas?
A pensar nisso, o INESC está a propor várias iniciativas que, se vierem a ser financiadas pela UE, permitirão às empresas beneficiar das competências que existem no sistema INESC e no sistema universitário desta área. “Estamos a propor um projeto grande, em particular, que tem uma componente que é justamente um laboratório de translação de tecnologias desenvolvidas para o tecido empresarial. As empresas podem dirigir-se ao instituto de investigação e desenvolvimento e dizer que gostavam de automatizar, seja um processo fabril ou administrativo“, disse o presidente.
Quando questionado sobre se esta automatização de processos pode colocar em causa a profissão do contabilista, Arlindo Oliveira não hesitou em afirmar que, “num longo prazo, todas as funções existentes agora estão, na prática, ameaçadas“. No entanto, recorda que ainda haverá “muito tempo para a sociedade se adaptar”: “No curto prazo, que será a próxima década, as pessoas não vão ser integralmente substituídas por máquinas, mas é importante que beneficiem do aumento de produtividade que isto permite. O contabilista deverá passar menos tempo a fazer lançamentos no sistema de contabilidade para estar mais tempo a prestar serviços de maior valor acrescentado, como aconselhamento fiscal e financeiro às empresas”.
“A Inteligência Artificial só será uma ameaça para o contabilista se ele continuar a fazer o que está a fazer agora. O contabilista tem de subir na cadeia de valor e pensar que pode trabalhar com os empresários de forma diferente. Portanto, esta adoção da tecnologia só o vai beneficiar, mas ele vai ter de trabalhar de forma diferente – vai ter de ser um arquiteto de soluções, especializado em contabilidade e em gestão de negócio. Portanto, a verticalização de conhecimento de domínio e a integração disto com tecnologia é fundamental para a sobrevivência dos novos profissionais desta área”, concluiu Arlindo Pinheiro.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Compliance Talks: O papel da IA na contabilidade
{{ noCommentsLabel }}