Guerra no Médio Oriente põe à prova resultados das cotadas do PSI
Contas do primeiro semestre deverão revelar o impacto do conflito do Médio Oriente nas contas, limitando as surpresas positivas, alertam analistas. Galp deverá beneficiar com subida do crude.
Depois da ameaça das tarifas, da incerteza geopolítica e do comboio de tempestades, os resultados das cotadas da bolsa de Lisboa vão ser mais uma vez postos à prova, desta vez num trimestre marcado pela escalada dos preços das matérias-primas devido à guerra no Médio Oriente. Apesar de os lucros das empresas do PSI terem resistido ao choque no arranque do ano, as perspetivas para a apresentação de resultados dos últimos três meses, que arranca esta semana, são mais cautelosas. Os analistas apontam menos espaço para surpresas positivas, ou mesmo alguns anúncios abaixo das expectativas.
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Nos, Navigator e Altri estreiam a “earnings season” do primeiro semestre do ano já esta quarta-feira, dia 23 de julho. Enquanto as papeleiras vêm de um período de quebra acentuada de resultados devido ao contexto internacional, ao temporal e ao aumento de custos, a operadora de telecomunicações fechou o primeiro trimestre com um crescimento dos lucros de 4,7%. Mas é na próxima semana que está concentrada a apresentação de resultados da maioria das cotadas do PSI, num período marcado pela guerra do Irão, que acelerou os preços da energia e originou uma mudança na política monetária, com impacto nos custos de financiamento.
“No que diz respeito à época de resultados que se aproxima, acreditamos que este terá sido um trimestre mais desafiante para a generalidade das empresas. Estamos convencidos que haverá menos espaço para surpresas positivas, podendo mesmo haver, em alguns casos, resultados que possam dececionar um pouco os investidores”, explica Pedro Barata, gestor de ações nacionais da GNB. “As pressões inflacionistas que derivaram da guerra no Médio Oriente já serão visíveis e ficaremos a saber de que forma é que esta situação impactou o negócio das empresas“, justifica.
Acreditamos que este terá sido um trimestre mais desafiante para a generalidade das empresas. Haverá menos espaço para surpresas positivas, podendo mesmo haver, em alguns casos, resultados que possam dececionar um pouco os investidores. As pressões inflacionistas que derivaram da guerra no Médio Oriente já serão visíveis e ficaremos a saber de que forma é que esta situação impactou o negócio das empresas.
O início da guerra no Médio Oriente, no final de fevereiro, já teve algum impacto nas contas do primeiro trimestre, mas será no segundo trimestre que o aumento dos custos da energia e a inflação criada pelo conflito, assim como as restrições à procura devido à guerra, se vão sentir.
Apesar das perspetivas mais cautelosas, o mesmo analista realça que “tão ou mais importante do que os números que serão divulgados sobre o que se passou” será a “mensagem dos gestores sobre as expectativas futuras e de que forma é que pensam ultrapassar alguns problemas pontuais que possam ter surgido”. “Acreditamos que será esta mensagem sobre o futuro que irá ditar a evolução da cotação das empresas no curto prazo“, antecipa.
“Com o PSI a negociar perto de máximos de 18 anos e a acumular um ganho superior a 10% desde janeiro, a fasquia das expectativas já embutidas nas cotações está exigente“, acrescenta João Queiroz, destacando que “resultados meramente ‘em linha’ com o consenso podem revelar-se insuficientes para sustentar valorizações adicionais nas empresas que já mais subiram, ao passo que nas cotadas mais penalizadas qualquer sinal de inflexão tende a ser recompensado com maior amplitude, precisamente por partirem de uma base de expectativas mais contido”, destaca o head of trading do Banco Carregosa.
Com o PSI a negociar perto de máximos de 18 anos e a acumular um ganho superior a 10% desde janeiro, a fasquia das expectativas já embutidas nas cotações está exigente. Resultados meramente ‘em linha’ com o consenso podem revelar-se insuficientes para sustentar valorizações adicionais nas empresas que mais subiram.
“Adicionalmente, o ‘guidance’ para o segundo semestre deverá pesar tanto ou mais do que os números já reportados, servindo de bússola para o posicionamento dos investidores até ao final do ano”, concorda o especialista, notando que “a expectativa global aponta para um conjunto de resultados sólido, mas sem uniformidade”.
Das 16 cotadas que compõem o índice de referência, dez mostram contas a partir da próxima segunda, dia 27 de julho, até ao final da semana. Apenas as construtoras Mota-Engil e Teixeira Duarte deixam a apresentação dos números do semestre para o final de agosto, com a Ibersol a fechar a época de resultados do semestre no dia 14 de setembro.

Para João Queiroz, a Galp, que dispara mais de 27% em bolsa este ano e que divulgou recentemente que a margem de refinação disparou 175% face ao mesmo trimestre do ano anterior, deverá destacar-se “favorecida por um enquadramento energético invulgarmente propício — a tensão geopolítica no Médio Oriente e as perturbações associadas ao Estreito de Ormuz, que têm sustentado os preços do crude e, por essa via, as margens de refinação”. “As contas do segundo trimestre, a divulgar a 27 de julho, deverão refletir esse pano de fundo favorável e virtuoso, ainda que a comparação homóloga e eventuais efeitos residuais do apagão ibérico de abril de 2025 mereçam algum escrutínio adicional”, acrescenta o especialista.
O head of trading destaca aquele que poderá ser o desempenho de cotadas como a Sonae ou BCP. A Sonae, que viu os lucros crescerem 11% no arranque do ano, “deverá confirmar o contributo positivo das aquisições internacionais — Druni em Espanha e Musti na Finlândia —, consolidando a transformação do seu perfil de crescimento para lá do mercado doméstico”.
“Já o BCP tem sido um dos protagonistas do ano, acompanhando o desempenho notável da banca europeia em bolsa: a perspetiva de um ciclo de taxas de juro que, embora descendente, deverá acompanhar de perto as pressões inflacionistas remanescentes, tem sustentado a expectativa de uma margem financeira mais resiliente do que inicialmente temido”, destaca João Queiroz, realçando ainda “o programa de recompra de ações próprias que reforça a remuneração acionista para lá do dividendo tradicional, bem como uma execução orçamental consistente, com o banco a demonstrar capacidade de controlo de custos e disciplina na gestão de capital”. “As contas de 28 de julho deverão ser o momento de validar se este otimismo tem correspondência nos números”, reforça.
Do lado mais desafiante, João Queiroz aponta os CTT e a Jerónimo Martins, que têm sido os principais penalizados do índice, com recuos de 22,1% e 17,3%, respetivamente. Com os CTT a serem pressionados pelas perspetivas cautelosas para 2026 e a Jerónimo Martins pela pressão sobre as margens na Polónia, o especialista explica que “ambas as cotadas surgem como as principais candidatas a uma eventual surpresa positiva no segundo semestre, caso as margens polacas estabilizem ou o cenário já descontado nos CTT se revele excessivamente pessimista — sendo, no entanto, prudente reservar uma conclusão mais definitiva para depois de conhecidos os números semestrais”.
Quanto às exportadoras do setor da pasta e do papel e da cortiça, João Queiroz justifica o fraco desempenho dos últimos trimestres com a guerra de tarifas e o abrandamento da procura global de pasta, afastando, porém, uma inversão da tendência negativa. “Não há, para já, motivo para uma mudança estrutural de discurso. A normalização do comércio internacional e uma travagem da procura fraca por pasta e papel constituem os catalisadores mais prováveis, mas ambos dependem de fatores exógenos ao controlo direto destas empresas, pelo que a prudência continua a impor-se“, sustenta.
Bolsa mantém potencial
Depois de ter vivido, em 2025, o melhor ano desde 2009, o PSI continua a brilhar. Pedro Barata mantém-se confiante “no potencial de valorização do mercado português no médio e longo prazo”. “A volatilidade poderá manter-se elevada fruto da incerteza geopolítica, mas a qualidade das empresas e das suas equipas de gestão mantêm-se. Assim sendo, acreditamos que os investidores que privilegiam o longo prazo continuarão a ver o mercado português com interesse”, acrescenta.
Já João Queiroz refere que “o cenário mais provável [para a bolsa] é o de um ritmo mais moderado e com maior oscilação do que o observado no primeiro semestre”, destacando que “extrapolar linearmente o desempenho dos últimos seis meses não seria realista, a menos que surja uma alteração estrutural relevante na economia nacional”.
“Com o índice junto de máximos que não via desde 2008, o elemento decisivo para prolongar os ganhos não será tanto o valor simbólico dessa marca, mas sim a capacidade concreta das cotadas em surpreenderem pela positiva, superando expectativas que já se encontram, em boa parte, refletidas nas avaliações atuais”, explica o especialista. Nesse sentido, diz, “esta época de resultados assume um papel particularmente relevante: mais do que confirmar a tendência, poderá ser o teste que determina se o ciclo de valorização tem fôlego para continuar ou se entra numa fase de consolidação mais cautelosa“.
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