Internacionalizar é “uma odisseia” para as empresas portuguesas
Crescer além-fronteiras exige coragem e capacidade de decidir em contextos de incerteza. Os desafios deste caminho estiveram em destaque na entrega do Prémio Inovação na Internacionalização.
Internacionalizar uma empresa não significa apenas exportar ou marcar presença esporádica em mercados estrangeiros. Exige inovação, talento, financiamento, capacidade de adaptação a outras culturas e coragem para tomar decisões em momentos de incerteza. Esta foi uma das principais mensagens da terceira edição do Prémio Inovação na Internacionalização, uma iniciativa da COTEC e do Santander Portugal.
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Na passada quarta-feira, o Grande Auditório do Santander recebeu a cerimónia dos prémios que distinguiram cinco empresas portuguesas, em categorias distintas, pelos seus percursos de internacionalização. Antes de anunciados os vencedores, houve espaço para debater o que se pode aprender com as organizações finalistas e os principais desafios de crescer lá fora.
Para Jorge Portugal, diretor-geral da COTEC, a internacionalização é uma “odisseia” que, muitas vezes, começa com um dilema empresarial, mas responder ao problema é apenas o primeiro passo. “A internacionalização não é um caminho linear”, afirmou, explicando que muitas vezes é preciso avançar e recuar até encontrar o caminho certo para um novo mercado. E mesmo quando se é bem-sucedido, internacionalizar exige que as empresas criem vantagens competitivas em várias dimensões, nomeadamente na robustez organizacional, na integração nas cadeias de valor e na evolução tecnológica.
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Conversa com Jorge Portugal, Diretor-geral da COTEC e Miguel Athayde Marques, membro do júri -
Roberta Medina, empresária e vice-presidente do Rock in Rio, e Filipe de Botton, presidente da direção da COTEC Portugal -
Manuel Castro Almeida, ministro da Economia e da Coesão Territorial
A adaptação cultural aos mercados externos é outro ponto central, já que este caminho implica compreender a realidade dos países para onde se vai, incluindo a sua dimensão institucional. “A internacionalização aprende-se na prática”, disse, sublinhando que o processo requer persistência, coragem e capacidade de tomar decisões em contextos de incerteza.
As empresas portuguesas que conseguem encontrar o seu rumo além-fronteiras têm estas capacidades, mas também têm outros fatores que as distinguem das demais, como uma maior capacidade de antecipação.
Miguel Athayde Marques, vice-reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP) e membro do júri, recordou que, apesar do sucesso das empresas participantes, há dimensões estruturais que continuam aquém do que seria expectável, o que acaba por revelar margem para progressão. Contudo, apontou, “não há algoritmo para isto, porque a gestão não é um livro de receitas”.
Ainda assim, há elementos comuns às empresas com maior capacidade de crescer e o principal são as pessoas, defendeu o vice-reitor da UCP. “Pessoas e talento são o mais importante numa empresa”, resumiu, defendendo que a capacidade de atrair e reter profissionais qualificados, a par do capital financeiro, é essencial para crescer.
Barreiras culturais devem ser ultrapassadas
A dimensão cultural é uma das mais desafiantes no processo de internacionalização e mereceu particular destaque na cerimónia de entrega de prémios. A entrada em novos mercados exige humildade e respeito pelos costumes locais, defendeu Roberta Medina, empresária e vice-presidente do Rock in Rio.
“Quando chegamos à casa dos outros, pedimos licença”, disse, defendendo que encontrar parceiros locais é essencial para melhor compreender as nuances culturais de outro país e evitar dores de crescimento e erros que podem sair caro.
Se há momento em que há incerteza é na internacionalização. Falhar é a coisa mais normal do mundo
No mesmo sentido, o presidente da direção da COTEC Portugal, Filipe de Botton, deixou um aviso às empresas portuguesas: é preciso “abandonar a ideia de que somos um povo missionário” que chega e tenta impor a sua cultura. Para que as organizações se tornem globais, é preciso que adaptem aos mercados onde chegam, afirmou o também presidente da Logoplaste, uma das empresas portuguesas com maior pegada de internacionalização.
Além destas questões, a dimensão dos mercados estrangeiros também pode ser desafiante. Portugal pode ser um país pequeno, mas isso não significa que não consiga afirmar-se internacionalmente em mercados de grande competitividade. Na perspetiva de Roberta Medina, as empresas de países pequenos, ou com economias mais frágeis, podem transformar essas condições em vantagens competitivas nos mercados estrangeiros onde a concorrência possa ter maior capacidade de financiamento. As organizações que nascem neste contexto têm mais tendência a ser criativas, porque se habituam a “fazer o máximo com pouco dinheiro”, explicou.
Embora o processo seja desafiante, deve ser entendido como um caminho para a aprendizagem. “Se há momento em que há incerteza é na internacionalização”, sublinhou Filipe de Botton, lembrando que os erros também fazem parte do percurso. Em Portugal, considerou, ainda existe uma cultura de vergonha em relação ao erro, mas “falhar é a coisa mais normal do mundo” e também serve para crescer, defendeu.
No Governo estamos focados em transformar conhecimento em valor económico, inovação em crescimento e talento em competitividade
Excelência empresarial deve ser reconhecida
O encerramento do evento focado no Prémio Inovação na Internacionalização ficou a cargo de Manuel Castro Almeida, ministro da Economia e da Coesão Territorial, que deixou uma mensagem de reconhecimento aos empresários “guerreiros que promovem a economia e o nome de Portugal por todo o mundo”. A atribuição de prémios, afirmou, não é o objetivo principal das empresas, mas é “justo” que sejam celebradas pela excelência, pelo mérito e pelas boas práticas.
Num contexto de “transição estrutural profunda”, marcado por uma revolução tecnológica, pela reorganização das cadeias de abastecimento e pelo avanço do protecionismo, a Europa enfrenta desafios crescentes, lembrou o governante. Neste cenário, o crescimento económico dependerá cada vez mais da competitividade e da capacidade de investimento e é nessa dimensão que Portugal “pode e deve afirmar-se”.
A estabilidade da economia nacional, o talento qualificado, os centros de investigação reconhecidos internacionalmente, empresas cada vez mais inovadoras e uma posição geográfica privilegiada são fatores de vantagem para as organizações portuguesas, defendeu.
“No Governo estamos focados em transformar conhecimento em valor económico, inovação em crescimento e talento em competitividade”, afirmou. O objetivo, disse, é construir “uma economia mais sofisticada, mais tecnológica e mais exportadora” e a dimensão do mercado nacional não deve ser vista como uma limitação, mas como um incentivo para procurar oportunidades além-fronteiras.
O ministro deixou, ainda, um alerta para o próximo ciclo de fundos europeus, que deverá trazer mais recursos para a competitividade e menos para a coesão. As empresas portuguesas devem preparar-se, juntar-se, colaborar e apresentar candidaturas aos fundos europeus de inovação. Caso contrário, avisou, grande parte desse dinheiro poderá acabar nos grandes mercados europeus e não ao serviço das empresas portuguesas.
“Uma economia mais competitiva, mais inovadora e mais aberta ao mundo é o nosso objetivo”, concluiu, defendendo que só um crescimento económico sustentável pode garantir “um futuro melhor” para o país.t
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