Endividamento da construção e imobiliário em máximos de 2013. Economistas afastam riscos

Apesar de o "stock" de crédito do setor ter subido para níveis do tempo da troika, especialistas destacam que os indicadores financeiros estão mais robustos e economia está em expansão.

O nível de endividamento das empresas do setor da construção e imobiliário subiu, em março, para o valor mais elevado desde novembro de 2023, período em que a troika ainda estava no país. Uma subida justificada pelo grande dinamismo do setor, num momento em que a procura por habitação permanece elevada, forçando mais investimento para responder à necessidade estrutural por mais casas. Com o setor a crescer acima da economia, especialistas afastam riscos de sobreendividamento e destacam o “baixo risco do setor”.

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As empresas do setor da construção e imobiliárias lideraram, em março, a taxa de crescimento anual do endividamento entre as empresas não financeiras privadas, segundo mostram dados divulgados esta semana pelo Banco de Portugal. O “stock” de dívida do setor registou um crescimento anual de 6,41% para 58.256,77 milhões de euros, um valor que compara com 57.930,50 milhões no mês anterior e 56.399,72 milhões, no período homólogo.

“Os dados do Banco de Portugal indicam que o endividamento das empresas não financeiras da construção e imobiliárias aumentou para 58,8 mil milhões em março de 2026, mais 0,3% face a 2013 e mais 12,6% face a 2019“, detalha Teresa Gil Pinheiro, analista financeira do gabinete de estudos económicos e financeiros do BPI, reconhecendo “um aumento no financiamento do setor em termos absolutos”.

O setor apresenta um dinamismo significativo, comparativamente ao total da economia, registando desde 2019 um crescimento real anual de 3,4% vs 1,8% do VAB (valor acrescentado bruto) real total da economia (…) Regista-se uma melhoria dos indicadores financeiros do setor e um aumento da procura de habitação, que consolidam o baixo risco do setor.

Teresa Gil Pinheiro

Analista financeira do gabinete de estudos económicos e financeiros do BPI

Dito isto, a economista nota que “esta evolução, quando enquadrada no andamento da atividade do setor ou dos seus rácios económico-financeiros, sugere evolução sustentada e saudável“. “O setor apresenta um dinamismo significativo, comparativamente ao total da economia, registando desde 2019 um crescimento real anual de 3,4% vs 1,8% do VAB (valor acrescentado bruto) real total da economia”, e, entre 2013 e 2025, apresentou um crescimento médio anual de 2,3%, que compara com um de 1,9% na economia como um todo, justifica a analista financeira do BPI.

Teresa Gil Pinheiro explica que “os dados setoriais do setor da construção confirmam o melhor posicionamento do setor, mitigando preocupações quanto ao aumento do endividamento no primeiro trimestre de 2026. Desde logo, aponta, a autonomia financeira em 2013 estava nos 20,7%; em 2019 nos 30,5%; e em 2024 (último ano disponível) nos 38,2%. Por sua vez, os financiamentos obtidos traçaram uma trajetória contrária, fixando-se em 2013 em 45,7%; 2019 nos 34,2%; e 2024 (último ano disponível) atingiram 24,2%.

“Objetivamente, regista-se uma melhoria dos indicadores financeiros do setor e um aumento da procura de habitação, que consolidam o baixo risco do setor“, reforça a mesma responsável, em respostas ao ECO.

Embora o stock de dívida da construção e imobiliário tenha regressado a níveis semelhantes em valor absoluto, mais de 58 mil milhões de euros em março de 2026, o seu peso na economia é hoje muito menor. Em 2013, o PIB nominal português era de 170 mil milhões de euros, representando a dívida neste setor quase 35% do PIB. Atualmente, com o PIB nominal à volta de 306 mil milhões de euros em 2025, o peso caiu para 19%.

Paulo Monteiro Rosa

Economista do Banco Carregosa

Também Paulo Monteiro Rosa, coordenador do gabinete de estudos económicos do Banco Carregosa, refere que “a atual subida do endividamento reflete um contexto económico muito diferente do de 2013″, realça Paulo Monteiro, notando que “agora a tendência económica é de expansão, enquanto nessa altura era de contração e desalavancagem”.

Embora o stock de dívida da construção e imobiliário tenha regressado a níveis semelhantes em valor absoluto, mais de 58 mil milhões de euros em março de 2026, o seu peso na economia é hoje muito menor“, explica o economista. Em 2013, lembra, “o PIB nominal português era de 170 mil milhões de euros, representando a dívida neste setor quase 35% do PIB. Atualmente, com o PIB nominal à volta de 306 mil milhões de euros em 2025, o peso caiu para 19%“.

Paulo Rosa destaca ainda que, em 2013, Portugal estava em plena crise da dívida soberana. “Atualmente, apesar das taxas de juro estarem mais altas do que há poucos anos, a economia apresenta maior robustez, sustentada por níveis historicamente elevados de emprego, forte dinamismo do turismo e maior investimento estrangeiro”.

Procura força investimento no setor

O economista do Banco Carregosa reconhece ainda que a subida do endividamento no setor da construção e imobiliário “reflete também necessidades estruturais”. “O aumento da população residente, impulsionado pela imigração, maior pressão demográfica nas áreas urbanas e escassez acumulada de habitação criaram uma necessidade significativa de aumento da oferta de casas. Assim, as empresas do setor têm recorrido mais ao crédito para financiar promoção imobiliária, aquisição de terrenos e novos projetos de construção”, sustenta.

Paulo Rosa salienta que “o setor imobiliário funciona estruturalmente com elevados níveis de alavancagem, dado que muitos projetos são financiados antecipadamente por dívida. Assim, parte do aumento do endividamento não reflete necessariamente deterioração financeira, mas, antes pelo contrário, maior atividade económica e crescente investimento ditado pelo aumento da procura por habitação e ativos imobiliários”.

Dito isto, o responsável avisa que “o crescimento do endividamento merece acompanhamento, sobretudo porque as taxas de juro permanecem elevadas e o setor da construção continua muito dependente de financiamento bancário e de condições de liquidez”. “Uma desaceleração económica mais forte ou correções no mercado imobiliário poderiam aumentar pressionar financeiramente as empresas mais alavancadas“, remata.

Filipe Garcia, economista da IMF, destaca que “tem sido notório o dinamismo do setor da construção em Portugal, reflexo da dinâmica do imobiliário e do turismo”. Sendo o investimento neste setor “quase invariavelmente feito com recurso a crédito bancário, pelo que a evolução do endividamento faz sentido”, explica.

Os preços do imobiliário continuam em alta, a procura está a aumentar e todos os estudos indicam que ainda há falta de oferta, nomeadamente de habitação, estando também a hotelaria a registar crescimentos ininterruptos. Há também um conjunto de medidas de acesso ao crédito que fazem aumentar a procura, quer por compra, quer por crédito. Deste modo, os bancos parecem continuar confortáveis [a financiar].

Filipe Garcia

Economista da IMF

“Os preços do imobiliário continuam em alta, a procura está a aumentar e todos os estudos indicam que ainda há falta de oferta, nomeadamente de habitação, estando também a hotelaria a registar crescimentos ininterruptos. Há também um conjunto de medidas de acesso ao crédito que fazem aumentar a procura, quer por compra, quer por crédito”, pelo que “os bancos parecem continuar confortáveis” em financiar estas empresas, refere Filipe Garcia.

O economista reconhece que apesar de ainda não haver sinais de desaceleração da procura, “será necessário estar atento aos sinais futuros dado que se vai notando muita presença de investidores no mercado que não são os consumidores finais do imobiliário“.

Choque fiscal vai suportar oferta

Com as medidas do choque fiscal para a habitação finalmente promulgadas, os especialistas admitem que este pacote pode dar um impulso extra ao setor e à procura por financiamento para a compra de casa, uma vez que o impacto nas rendas (e na oferta) não será imediato.

“Há benefícios fiscais para a construção, há incentivos ao build do rent e alterações do IRS, que poderão levar a uma maior rotação de imóveis”, admite Filipe Garcia. “É de esperar que o valor das rendas possa desacelerar em virtude destas medidas, mas no imediato deverá provocar um aumento da procura por crédito”, constata.

Também Paulo Rosa nota que “as medidas de apoio à habitação, como a garantia pública no crédito habitação jovem, os benefícios fiscais e os incentivos ao aumento da oferta, devem incentivar a procura por financiamento, sobretudo se estimularem a compra de casa e o lançamento de novos projetos num contexto de escassez de oferta e forte procura habitacional”.

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