Máximos nas bolsas? “Caos político” está a forçar governos e empresas a investir
JPMorgan AM continua confiante numa resolução, no curto prazo, do conflito no Médio Oriente. Apesar de a guerra ter colocado o otimismo "em pausa", gestora continua confiante na recuperação na Europa.
- Os mercados acionistas globais têm registado fortes subidas, mesmo com a guerra no Médio Oriente e o aumento dos preços do petróleo, nota a JPMorgan Asset Management.
- A empresa destaca que o aumento dos gastos governamentais e os investimentos empresariais são impulsionados pela instabilidade política, o que favorece o crescimento económico.
- Se o conflito no Médio Oriente se resolver rapidamente, o otimismo em relação à recuperação da economia europeia poderá ser revitalizado, segundo a gestora de ativos.
Nem a guerra e a escalada dos preços do petróleo consegue travar o otimismo nos mercados acionistas globais, com os EUA a negociarem próximos de recordes. Para a JPMorgan Asset Management (AM), este desempenho é tudo menos irracional. “Quanto mais caótico o mundo se torna, mais os governos vão gastar e as empresas vão investir e isso vai reverter-se em crescimento e mais lucros”, defende Karen Ward. A responsável pela estratégia de investimento da gestora para a Europa mantém-se confiante numa resolução do conflito no Médio Oriente no curto prazo e diz que o otimismo para a Europa está apenas “em pausa”.
“Vivemos tempos muito incertos e temos os mercados a continuarem a bater máximos. Os mercados são irracionais, complacentes?”, questiona a estratega, que considera que “há um motivo porque continuam tão fortes”, lembrando que uma semana depois do chamado “Dia da Libertação” em abril de 2025, no qual Donald Trump anunciou uma leva de novas tarifas aduaneiras, com a implementação das chamadas taxas recíprocas e de outras sobre setores, as bolsas já estavam a subir. “Os investidores estão taticamente a tentar seguir os anúncios [da Casa Branca]”, justifica Karen Ward, na conferência anual da gestora de ativos, em Londres.

Mas o que justifica este otimismo dos investidores num mundo virado do avesso, devido aos anúncios feitos por Donald Trump, que normalmente chegam através da rede social Truth ao domingo à noite? Para a responsável pela estratégia de investimento da JPMorgan AM, todo este “caos político cria dois tipos de investimento”.
Por um lado, os governos estão a gastar mais dinheiro. Com a política norte-americana a seguir uma direção oposta à da União Europeia, “os governos têm de focar mais gastos na segurança, gastar mais para reforçar a sua capacidade militar, investir em infraestruturas militares”. “Por causa da política, os governos têm de gastar mais”, resume. E, quando isso acontece, diz, isso “mostra-se no crescimento económico”.
Segundo Karen Ward, “a outra forma de investimento adicional é nas empresas”, com as companhias a apresentarem maiores programas de investimento, em que há quase uma disputa, especialmente entre as tecnológicas, para ver quem constrói o maior centro de dados ou investe mais. “Estamos a mover-nos de um ponto de criar tecnologia para utilizar a tecnologia”, explica. “Quanto mais caótico o mundo está, mais impulsiona as empresas a ter mais planos de investimento”, o que resulta em mais resultados e melhores retornos para os acionistas. “Os mercados estarem a subir, para mim, faz sentido”, resume.
Quanto à Europa, a responsável nota que “no início do ano estava muito otimista” e confiante de que “este iria ser o ano em que os europeus iam começar a gastar, e depois veio a guerra do Irão”. “Esse dinheiro não está a chegar à economia”, lamenta. “Se o conflito terminar nas próximas semanas – não é do interesse dos EUA ou do Irão levar isto para uma situação em que preços vão disparar e levar economia para uma recessão – esse otimismo para uma recuperação da Europa vai mudar”, garante.
George Gatch, CEO da JPMorgan AM, reconhece que “há muito ruído e incerteza nos mercados e os investidores querem respostas sobre quando a guerra vai terminar, para onde vai a inflação, etc.” “É uma das épocas mais difíceis da minha carreira”, admite. Apesar de toda esta instabilidade, a gestora mostra-se confiante e diz que continua focada na Europa, onde mantém o otimismo que a regulação vai ser simplificada.
Sobre o património dos europeus, maioritariamente detido em depósitos, Gatch refere que “há muito trabalho que pode ser feito que pode ser muito positivo para a economia europeia”. “Europeus são aforradores, mas de forma muito ineficiente”, considera.
Quanto ao mercado da dívida soberana, que assistiu nos últimos dias a um selloff, com as yields a disparem para máximos de duas décadas, o CEO da gestora de ativos realça que “uma normalização das taxas, especialmente para o setor bancário, é importante”. “O maior risco para a economia global é a inflação.”
Com os juros das obrigações a negociarem em valores mais elevados – as Treasuries a 10 anos dos EUA estão acima de 4% – , Gatch identifica oportunidades na dívida. “Os investidores veem essa normalização das taxas como uma oportunidade. Vai ser uma área importante para nós.”
Iain Stealey, responsável global pelo investimento em dívida, reconhece que “toda a gente está focada na inflação e o risco de regressar a níveis de 2022”. Um cenário afastado pela gestora. Apesar de as yields estarem em níveis “que não vimos nas últimas décadas”, Ian Stealey nota que “a inflação está em níveis muito diferentes de onde estava em 2022”. É por isso que o gestor considera as subidas de juros descontadas pelos mercados “exageradas”, identificando oportunidades no mercado da dívida, em particular nos emergentes e no crédito de empresas de elevada qualidade.
*A jornalista viajou a Londres a convite da JPMorgan AM
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