Ivo Gomes: “Acho que Portugal não é o país mais amigável para as empresas ou para o empreendedor”

  • ECO
  • 23 Fevereiro 2026

Estudou economia, mas o seu talento para as vendas levou-o até ao marketing de forma natural. Hoje, Ivo Gomes é CEO da MOB Agency e partilha a sua habilidade e estratégia para melhorar negócios.

Ivo Gomes, CEO da MOB Agency, é o 66º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Começou, desde cedo, a sentir que tinha uma habilidade natural para as vendas e isso fê-lo ganhar uma enorme confiança na sua capacidade de empreender sozinho. Mais do que tirar um curso, o seu desejo era criar um negócio seu, mas o pai acabou por fazê-lo seguir outro caminho. Ou não.

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“Eu queria estudar marketing, mas para os meus pais isso não era um grande curso. O meu pai dizia-me que o marketing não serve para nada e que não existe. Tínhamos muitos debates sobre isso. Eu ainda tentei convencê-lo a emprestar-me o dinheiro que iria investir na minha educação para eu montar um negócio, mas acabei por ingressar em economia, em Vila Real“, partilhou.

Apesar de ter entrado em economia, a verdade é que o marketing continuava a fazer parte da sua vida, e isso levou-o a ter muitas discussões com os seus professores: “Eu tinha muitas picardias com os meus professores porque não concordava com a forma como as coisas eram lecionadas. Existe uma diferença muito grande entre o que a economia pensa do consumidor e o que o marketing pensa do consumidor“.

O ambiente não era, por isso, o que mais agradava Ivo Gomes e isso fez com que faltasse a muitas aulas e se tornasse um mau aluno. “Até que o meu pai me fez um ultimato e me disse que a cada cadeira que eu chumbasse, ele ia tirar-me dinheiro da mesada. Isso forçou-me a arranjar outras formas de monetizar as coisas, e hoje dou graças a essa atitude porque foi assim que eu aprendi imenso“, revelou.

A verdade é que foi justamente o ultimato do pai que levou o agora CEO da MOB a começar o seu percurso na área que realmente o fascinava. Começou a vender “coisas” online, através do facebook, e percebeu que isto poderia mesmo transformar-se num negócio: “Durante bastante tempo, eu achava que era só um habilidoso porque arranjava forma de dar um spin às coisas que comprava. Como era uma área muito nova, não havia muita informação na internet, nem havia livros sobre o assunto, então eu era forçado a ler as políticas de privacidade do facebook. O pouco dinheiro que eu tinha era investido ali. Quando, finalmente, se começou a falar que o digital era o futuro, para mim já era o meu presente“.

As vendas no facebook rapidamente o levaram à consultoria. “Eu até dizia que fazia de graça [consultoria] porque só queria era ter acesso a mais dinheiro para investir e aprender, mas, mesmo assim, muitas vezes as pessoas recusavam“, admitiu, ao mesmo tempo que reconheceu que essa realidade só começou a mudar quando decidiu dedicar-se mais aos estudos e pediu à universidade para fazer um MBA executivo enquanto terminava a licenciatura: “Eu era o aluno mais novo no MBA executivo, todos os outros eram já diretores ou CEO. No MBA tive um excelente professor de marketing, que dizia que o digital era o futuro e eu dava a minha visão daquilo que era o presente. E isso fez com os meus colegas começassem a dizer que eu era “o puto do digital” e viessem falar comigo sobre o que eu achava de fazerem um site, ou sobre como podiam escalar“.

“Eu era um miúdo com 21 anos que começou a ir a empresas com 200 ou 300 funcionários para tentar perceber como podiam digitalizar”, continuou. Mantinha as vendas online, juntamente com um sócio, que ainda hoje é seu parceiro de negócios, mas continuava a fazer consultoria porque queria aprender mais: “Já estávamos a fazer uma vida confortável, mas eu queria sempre ser melhor, então continuei a ser consultor porque realmente gostava e sentia que aprendia imenso com as pessoas que me davam oportunidade“.

E foi justamente a experiência dos seus clientes que levou Ivo Gomes a enveredar por uma nova aventura, que o levaria, mais tarde, a iniciar a sua própria agência. “Um dos meus clientes falou comigo para eu começar a fazer um trabalho de redes sociais numa agência e disse-me que o CEO gostava de me conhecer. Fui lá, recebi o convite para trabalhar e, como eu gostei imenso do CEO e daquilo que era a visão dele, aceitei, mas avisei-o logo que dali a dois anos teria uma agência minha“, contou.

De facto, dois anos depois, tinha a sua agência. Mas muito devido a um “clique” que teve depois de ser confrontado com algumas palavras do CEO para quem trabalhava: “Eu recebi uma proposta para ser diretor de marketing de uma agência que estava em Portugal e no Brasil. Falei com ele sobre isso e ele disse-me: ´Ninguém quer um diretor como tu. As pessoas não querem um diretor que seja tão direto, tão exigente e que trabalhe tantas horas. Tu és um excelente marketeer, mas não queiras ser o Mourinho porque acho que ias ser um péssimo treinador´. Eu ouvi e encarei automaticamente aquilo como um desafio. Hoje olho para trás e percebo que ele tinha razão em muitas coisas que disse. Tive que mudar bastante e de aprender porque eu era muito individualista e não sabia muito bem trabalhar em equipa“.

Pouco depois deste episódio, Ivo Gomes saiu da agência porque não quis renovar com a empresa e disse ao CEO que ia abrir a sua própria agência. “Disse-lhe que ia abrir uma agência e que não precisava de estar preocupado porque eu não ia levar clientes. Acho que seria injusto eu retirar clientes de um sítio que confiou em mim e que me deu liberdade para eu executar. Não me ia sentir bem comigo próprio“, disse.

A verdade é que, mesmo abrindo a agência sem ter uma carteira de clientes prévia, o primeiro cliente foi conseguido praticamente no dia de abertura: “Eu liguei a uma pessoa para lhe dizer que ia abrir uma agência e ela disse-me que já tinha alguém a quem me ia recomendar, portanto começamos logo a executar o trabalho”. A partir daí, todas as decisões que tomou foram com base na confiança que tinha na sua ideia. “Nós abrimos a agência com cinco funcionários. O meu sócio, sendo financeiro, não achava uma excelente ideia, e não era. Mas eu não queria abrir uma agência para ser apenas eu a executar o trabalho. O meu desafio era exatamente montar uma agência para não voltar a ser consultor“, reconheceu.

Era um “caminho mais difícil”, mas Ivo Gomes não tinha dúvidas de que queria percorrê-lo. Mas, para isso, precisavam de dinheiro, até porque tinham salários para pagar e poucos clientes: Quando contratamos essas pessoas, tínhamos dois clientes, ou seja, não dava para pagar os salários. Claro que nós colocamos algum investimento, mas eu disse ao meu sócio que ia lançar um anúncio a dizer ´queremos o teu dinheiro´. Toda a gente achou que era uma péssima decisão, mas era baseada na honestidade e em termos uma comunicação disruptiva do mercado. Além disso, explicávamos porquê – se eles ganharem mais dinheiro, nós também ganhamos”.

Apesar dos receios, o anúncio avançou e o agora CEO da MOB garante que foi o que “teve o maior retorno de todos” os que já fizeram. “Nós não tínhamos portefólio nem grande posicionamento porque tínhamos acabado de abrir, então precisávamos de usar estratégias de marketing para conseguirmos ter esse próprio posicionamento. E eu acho que uma empresa ser diferente é uma questão de sobrevivência. Se formos abrir uma coisa para ser exatamente igual aos outros, começamos logo a perder“, afirmou.

“Ser diferente” foi uma questão de sobrevivência para a sua empresa, mas também para si próprio. Isto porque, se enquanto marketeer se sentia muito confiante, o mesmo não acontecia enquanto CEO. Isso obrigou-o a aplicar métodos diferentes daqueles que tinha: “O meu ex-patrão tinha razão quando me disse que eu não seria um bom diretor nem um bom CEO da maneira que eu era porque eu sempre achei que conseguiria resolver tudo sozinho, mesmo que as outras pessoas não o fizessem. E hoje a perspetiva é completamente oposta. Hoje, se eu estiver a resolver algo, isso significa que eu falhei. Então penso sempre em como é que eu posso capacitar as pessoas para elas conseguirem resolver os problemas. O shift que existiu do primeiro ano para agora foi eu deixar de ser o Ivo marketeer e tornar-me mais no Ivo CEO. É uma visão muito diferente“.

Além de aprender a passar responsabilidades à sua equipa, o CEO também pretende conseguir recompensar cada vez mais os seus funcionários por isso: “Eu espero conseguir pagar os salários mais altos nesta indústria em pouco tempo, pelo menos aqui em Portugal, porque isso significa que tenho a melhor equipa”. Para o futuro, revela que, “provavelmente, a MOB vai deixar de ser apenas uma agência”. “Vai ser um grupo com várias áreas dentro da criatividade, mas também fora. Será um voltar àquilo que eu e o meu sócio fazíamos no início, que era abrirmos lojas online e vendermos coisas, mas agora um bocadinho mais profissionalizado e interessante“, partilhou, revelando que a vontade de mudar está intrínseca na sua vida.

Mas será a mudança mais suscetível a falhas ou sucessos? Para o CEO da MOB Agency, não há dúvidas: “Falhar entusiasma-me”. “Eu acho sempre que consigo, então, mesmo que eu falhe, eu acredito sempre que é uma questão de tempo até dar a volta a isso. E o meu sócio é igual. Na verdade, se acontecer uma ´desgraça´, nós os dois estamos a rir-nos e a pensar como é que vamos resolver. Acho que qualquer empreendedor deve ser mais assim“, concluiu.

Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan.

Pode assistir ao episódio completo aqui:

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