“Ter data centers não ajuda nada Portugal se não controlar os algoritmos”, diz Varoufakis
Economista e ex-ministro das Finanças grego alertou esta segunda-feira para o “pequeno número” de empregos criados, enquanto a “rede elétrica fica congestionada” e os recursos hídricos escasseiam.

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O economista Yanis Varoufakis, ex-ministro das Finanças da Grécia, aconselhou esta segunda-feira ao desinvestimento em centros de dados e computação cloud se não houver soberania sobre os algoritmos que estão por detrás dessas infraestruturas. O antigo governante grego alertou para os poucos postos de trabalho criados e o consumo excessivo de recursos naturais que trazem a Portugal.
“Os centros de dados são o novo colonialismo. Chegam, consomem a tua eletricidade, consomem a tua água, não criam emprego. Não ajuda nada Portugal ter data centers se não controlar os algoritmos”, afirmou Yanis Varoufakis, em conferência de imprensa a partir da Web Summit Qatar.
Yanis Varoufakis explicou que a problemática tem que ver com quem detém os algoritmos. “Se não fores dono dos algoritmos, és vítima dos centros de dados. É muito simples. Quantos postos de trabalho vão criar em Portugal com centros de dados? Nada. Números pequenos, mas a vossa rede elétrica ficará congestionada, os vossos recursos hídricos serão escassos e vocês serão apenas mais uma colónia, como nós na Grécia”, advertiu.
Além do colonialismo destes armazéns de servidores, que têm alimentado o imobiliário comercial, mobilizado milhares de milhões de euros em Portugal e lutado para se tornarem mais sustentáveis, o académico teorizou ainda sobre o futuro do capitalismo. Na sua opinião, depois deste sistema económico, seguir-se-á o “tecnofeudalismo”.
Em linha com a mensagem partilhada no seu livro Technofeudalism: What Killed Capitalism, Yanis Varoufakis defende que o modelo que reinou no início da Idade Média baseado na posse da terra (feudo) e na relação entre os homens (fidelidade) voltará, mas desta vez entre os cibernautas e as grandes tecnológicas.
Empresas como Amazon, Google, Meta Plataforms ou Apple obtêm uma “renda”, detêm a infraestrutura digital e contam com os “vassalos” que são os utilizadores das suas redes sociais ou as PME que utilizam as suas plataformas para vender. O ex-ministro grego dá o exemplo de Jeff Bezos, que “fica com 44%” do valor que a empresa mais pequena lucrou ou do valor que o internauta pagou por um produto/serviço.
“Eu adoro o meu telemóvel e todas estas tecnologias. Eu adoro a inteligência artificial, porque até pode salvar vidas. Mas a questão é: quem é que controla estas máquinas?”, perguntou à audiência do palco principal. “As máquinas não produzem nada a não ser a capacidade para mudar comportamentos. Em vez de produzirem matérias-primas, têm um poder”, frisou o fundador do partido político grego MeRA25 e do Movimento Democracia na Europa 2025.
Stablecoins vão criar “colapso financeiro equivalente a 2008”
O antigo responsável pela pasta das Finanças voltou ainda a atacar as criptomoedas ligadas a moeda fiduciária (stablecoins) e antecipou uma crise financeira global que pode ser semelhante ou até pior do que a de 2008.
“As stablecoins serão a razão pela qual teremos o próximo grande colapso financeiro, o equivalente a 2008. Talvez 2008 pareça um passeio no parque quando as stablecoins concluírem o processo pelo qual Silicon Valley está a privatizar a moeda fiduciária do mundo, o dólar”, antevê.
As moedas estáveis, além de serem tudo menos estáveis, são a fonte de todas as instabilidades futuras. São um cavalo de Troia através do qual Silicon Valley está a assumir o controlo de Wall Street.
Varoufakis deu como exemplo a criptomoeda Tether Dólar (USDT), cujo modelo de negócio passa por comprar títulos do Tesouro norte-americano (dívida). Na prática, a Tether guarda esse dinheiro num cofre e, quando alguém o quiser de volta, vende os títulos e devolve o valor, fazendo com que a taxa de conversão de um para um fique garantida.
“Isto não é um problema quando acontece em pequena escala”, ressalvou. No entanto, com as ambições de Donald Trump nesta área, ao lançar a plataforma financeira World Liberty Financial, os planos de bancos como o JP Morgan em fazê-lo e a previsão de que, nos próximos 18 meses, 6,6 biliões de dólares [5,6 biliões de euros] migrem de contas bancárias tradicionais nos Estados Unidos para stablecoins, “é macroeconomicamente significativo” e “cria um ciclo vicioso entre as stablecoins e os títulos do Tesouro”.
Questionado sobre a guerra comercial entre a União Europeia e os Estados Unidos devido às tarifas, o economista grego considerou que “a Europa só tem a si própria para culpar”. “O nosso modelo de negócio, desde que criámos o euro, tem sido mercantilista” de forma a “converter a zona euro numa Alemanha de grande escala”.
“A ideia sempre foi manter a procura baixa, controlar os salários para ter competitividade – o que não é o mesmo que produtividade – e, mantendo os salários relativamente baixos em relação ao crescimento da produtividade, alcançar a competitividade e ser um exportador independente”, começou por explicar aos jornalistas, na cimeira tecnológica que decorre em Doha até quarta-feira.
“Criámos o euro sem a capacidade da zona euro para gerir o investimento. Assim, só se podia sustentar com 240 mil milhões de dólares [203 mil milhões de euros] em exportações líquidas da Europa para os Estados Unidos. Sendo o Trump, esta seria a grande oportunidade para atacar os europeus com um instrumento contundente: as tarifas”, concluiu.
*A jornalista viajou até Doha a convite da Startup Portugal
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