Henrique Soares: “Sem imigração, teríamos provavelmente menos vinho e menos oferta”
É engenheiro agrónomo e tornou-se presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS). Em conversa no "E Se Corre Bem?", Henrique Soares partilha o seu percurso e o da CVRPS.
Henrique Soares, presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), é o mais recente convidado do podcast “E Se Corre Bem”. Apesar de ser formado em engenharia agrónoma pelo Instituto Superior de Agronomia, Henrique Soares sempre desejou trabalhar com algo relacionado à vinha, desejo que viria prolongar um legado familiar deixado pelo seu avô.
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“Eu sempre tive vontade de trabalhar ligado à vinha. Essa vontade acaba por nascer um bocadinho através do meu avô, que era armazenista de vinhos e seus derivados. Foi o único avô que eu não conheci, mas a minha mãe e a minha tia passaram-me muito essa memória e ainda tive muito contacto com aquilo que ele deixou ligado à vinha e ao vinho”, começou por explicar.
Este desejo já existia quando entrou na universidade, mas, pela falta de ofertas de cursos na área vinícola, acabou por escolher engenharia agrónoma, especializando-se depois em economia agrária: “A minha tendência também era ligada às áreas de economia e, portanto, havia uma especialidade, que era economia agrária, que foi a que eu escolhi e que de alguma forma me acabou por abrir portas àquilo que foi o início do meu percurso profissional”.
Na sequência desta escolha, Henrique Soares começou a sua carreira a fazer gestão de empresas na Confederação dos Agricultores de Portugal e assistiu de perto às consequências da adesão de Portugal à União Europeia. “A minha primeira década de percurso profissional foi de grande crescimento. Eu costumo dizer que nesses dez anos vivi vinte porque estávamos noutro enquadramento em relação às questões da agricultura e do desenvolvimento rural em Portugal, uma vez que estávamos na pós-adesão. Esses dez anos foram muito importantes no meu crescimento enquanto ser humano e profissional“, revelou.
No entanto, após uma década que considerou intensa, o presidente da CVRPS decide sair de Lisboa porque sentia que precisava de mais “qualidade de vida” e foi nessa altura que Setúbal entrou na sua vida: “Depois de mais de 15 anos a estudar e a trabalhar em Lisboa, eu estava um bocadinho farto desta vida. Era uma vida demasiado urbana para mim. Por isso, andava a mandar currículos e tive uma colega de trabalho que soube da oportunidade [para trabalhar na CVRPS] e me disse. Mandei CV e esse fez com que a minha vida mudasse”.
Na altura, a Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal tinha apenas cinco pessoas, hoje tem dez. Mas, quando se fala de uma escala que inclui vitivinicultores, produtores e operadores, os números aumentam bastante. “Em média, são 60 os vitivinicultores engarrafadores que recorrem aos nossos serviços. Em termos de operadores inscritos são cerca de 140. Digamos que a certificar vinho numa base regular anual são, em média, 60. Para além de cerca de 900 viticultores. Entre viticultores, produtores, empresas pequenas, médias e grandes, estimamos à volta de três mil pessoas“, disse.
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Henrique Soares, presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), no 62º episódio do podcast do ECO "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
"Eu sempre tive vontade de trabalhar ligado à vinha. Essa vontade acaba por nascer um bocadinho através do meu avô, que era armazenista de vinhos e seus derivados" Hugo Amaral/ECO -
"Uma região vitivinícola é sempre um enorme jogo de equipa - começa na vinha, com os viticultores, porque sem viticultores não há regiões, e, a partir daí, vamos para a fase da vinificação, da transformação das uvas. Mas é depois, no contacto com o mercado, que uma região vitivinícola se faz" Hugo Amaral/ECO -
Henrique Soares, presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal (CVRPS), no 62º episódio do podcast do ECO "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO
Ainda assim, reconhece que ainda existe carência de trabalhadores, “não tanto para as posições mais exigentes, do ponto de vista da formação”, mas sim para os trabalhos mais indiferenciados: “Os jovens, hoje em dia, dificilmente querem ir trabalhar ao sol, à chuva, ao vento, ao frio… Portanto, há um conjunto de trabalhos, tanto ao nível da vinha, como alguns trabalhos de adega, mais duros fisicamente, em que temos que recorrer muito a imigrantes. Sem imigração, teríamos provavelmente menos vinho e menos oferta porque estamos a falar de milhares de trabalhadores em todo o país vitivinícola e que ocupam posições que não deixam de ser posições chave na cadeia de produção“.
Para o presidente da CVRPS, o segredo do crescimento de uma região vitivinícola está nas pessoas e no saber trabalhar em equipa. “Uma região vitivinícola é sempre um enorme jogo de equipa – começa na vinha, com os viticultores, porque sem viticultores não há regiões, e, a partir daí, vamos para a fase da vinificação, da transformação das uvas. Mas é depois, no contacto com o mercado, que uma região vitivinícola se faz. Portanto, naturalmente que as grandes marcas e empresas que temos têm construído em larga medida a região, na medida em que são a ponta do iceberg, a parte visível. É uma construção de equipa”, explicou.
Este trabalho em equipa fica ainda mais evidente quando se percebe qual é o principal objetivo das regiões vitivinícolas que, de acordo com Henrique Soares, é “proteger quem produz uvas”: “O que se espera que uma região vitivinícola faça é levar a que as uvas passem a ser mais bem valorizadas, as vinhas possam ser cada vez mais bem tratadas e os vinhos passem a ter cada vez melhor qualidade. É um ciclo virtuoso e por isso é que uma região vitivinícola é sempre um grande jogo de equipa porque faz com que as empresas mais focadas no comércio ou até na exportação tenham que comprar uvas e vinhos a pequenos viticultores e a pequenos produtores da região“.
“Os números são absolutamente esmagadores entre o momento do arranque da Comissão Vitivinícola Regional da Península de Setúbal até ao final dos anos 90 e início deste século. Nós mais do que triplicamos o volume de comercialização e a nossa presença e visibilidade no mercado nacional. Antes desta pequena crise de há dois anos atrás, a nossa cota era 20%, ou seja, em cada 10 garrafas, duas eram nossas, e isso é um número que, para uma região que não é das mais produtivas em Portugal, é extraordinário. E acho que é o maior atestado de como os vinhos de Setúbal têm corrido bem“, concluiu.
Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e dos Vinhos de Setúbal.
Pode assistir ao episódio completo aqui:
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