Gonçalo Fernandes: “Se eu quiser aumentar os ordenados, pago 50% de taxa”
Teve uma juventude rebelde que o fez começar a trabalhar em alguns restaurantes do pai quando ficava de castigo. Hoje é CEO do grupo Fullest, com mais de 25 restaurantes, e partilha a sua jornada.
Gonçalo Fernandes, CEO do grupo Fullest, é o 59º convidado do podcast “E Se Corre Bem?”. Na sua juventude, a rebeldia era uma das suas principais características e valeu-lhe alguns castigos, que o levaram a servir muitas vezes às mesas nos restaurantes do pai. Anos mais tarde, é ele próprio dono de vários restaurantes e garante que o sucesso só se alcança trabalhando.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
“Eu nasci numa família com algumas posses financeiras e, naturalmente, tive uma educação regrada, de colégios. E a verdade é que, nesses colégios, sempre fui um pouco rebelde. E houve um momento em que extravasei mais do que seria normal porque tinha ficado com umas cadeiras por fazer, e o meu pai disse-me que tínhamos duas soluções – se eu quisesse continuar a ter uma vida como tinha, tinha que começar a trabalhar porque ele não ia sustentar pessoas que não querem fazer nada“, começou por dizer.
A partir desse ultimato, Gonçalo Fernandes começou a trabalhar num dos restaurantes do pai, mas revelou que passou por todas as etapas: “Comecei no armazém, depois fui para a copa, depois estive no bar a tirar cafés e também servi às mesas no bar. Só depois é que fui servir às mesas no restaurante porque aí já era necessário outro tipo de sensibilidade para servir os clientes”. No entanto, este emprego apenas durou até à asneira seguinte, que o levou a ser despedido pelo pai.
“Além de me despedir, o meu pai tirou-me os carros. Então eu não saía de casa e dizia-lhe que não conseguia ir a lado nenhum porque eu não sabia andar de transportes”, partilhou, reconhecendo a sua rebeldia e acrescentando que foi aí que o pai lhe deu uma última oportunidade. “Quando o meu pai percebeu que eu não saía mesmo de casa, teve uma conversa séria comigo e disse-me: ´Gonçalo, isto é uma última aposta, vais ter de começar a provar que queres fazer algo na tua vida porque isto não pode continuar assim´. E eu fui trabalhar como responsável de um dos restaurantes dele, na baixa de Lisboa“, contou.
Foi nesse trabalho, enquanto fechavam as caixas e conviviam com funcionários de outros restaurantes adjacentes, que conheceu aqueles que viriam a ser os seus sócios: “Conheci e comecei a dar-me muito bem com o chefe de cozinha e o chefe de sala de um restaurante que se chamava Valentino e que era o número um em Lisboa. E, em conversa, disse-lhes: ´Vocês, obviamente, sabem trabalhar. Eu estou a trabalhar para o meu pai, vocês estão a trabalhar para outros, mas vamos arranjar um espaço e vamos abrir um restaurante sozinhos, os três´. Encontrei um espaço, que ainda mantenho, fizemos uma obra e desenvolvemos um negócio“.
Nessa altura, chegou a pedir dinheiro emprestado ao pai, mas este negou. “O meu pai disse que não fazia sentido nenhum emprestar-me esse dinheiro porque eu já trabalhava, mas recomendou-me uma pessoa para eu falar no banco e pedir um empréstimo. A partir daí as coisas começaram a acontecer”, disse, ao mesmo tempo que reconheceu que foi de alguma “inconsciência” ter dado esse passo, uma vez que não tinha o mesmo conhecimento de negócio que os outros dois sócios tinham.
Ainda assim, e por estar localizado numa zona privilegiada, o negócio correu bem e, seis meses depois, já estavam a abrir outro restaurante. Um tempo depois, um dos sócios saiu e Gonçalo comprou a sua parte, mas continuou a usar o lucro que tinha nos negócios para abrir cada vez mais restaurantes. Até que, em plena pandemia, comprou a parte do outro sócio e ficou sozinho com o negócio que, pela dimensão que tem, garante não poder ser perfeito: “Para conseguires ter um grupo desta dimensão, tu não podes querer perfeição porque é completamente impossível”.
-
Gonçalo Fernandes, CEO do grupo Fullest, no 58º episódio do podcast "E se corre bem?" Hugo Amaral/ECO -
"Comecei no armazém, depois fui para a copa, depois estive no bar a tirar cafés e também servi às mesas no bar. Só depois é que fui servir às mesas no restaurante porque aí já era necessário outro tipo de sensibilidade para servir os clientes" Hugo Amaral/ECO -
"Temos de procurar a perfeição, mas temos de perceber que há problemas mais importantes do que outros para serem resolvidos. A partir daí, o que é mais importante quando se quer consolidar um grupo desta dimensão, é ter uma grande equipa" Hugo Amaral/ECO -
"As pessoas fazem esforços para irem a restaurantes e têm de ser tratadas de uma forma que as faça querer voltar e que sintam que o seu dinheiro é valorizado" Hugo Amaral/ECO
“Temos de procurar a perfeição, mas temos de perceber que há problemas mais importantes do que outros para serem resolvidos. A partir daí, o que é mais importante quando se quer consolidar um grupo desta dimensão, é ter uma grande equipa. E hoje eu tenho uma grande equipa a trabalhar comigo”, afirmou, revelando que, em épocas altas, tem entre 500 a 600 pessoas a trabalhar nos seus restaurantes.
Contudo, tendo em conta a dificuldade que sente em arranjar profissionais para trabalhar em restauração, o CEO garante que é importante valorizar os funcionários. No entanto, garante que os impostos não ajudam a que isso aconteça: “Eu quero ajudar a desenvolver Portugal e quero que os meus colaboradores tenham cada vez mais condições. Gostava muito de lhes dar comissões, mas depois os negócios não são rentáveis. Não posso dizer que eles têm os melhores horários nem os melhores ordenados do mundo porque não é verdade. Mas se eu quiser aumentar os ordenados, pago 50% de taxa. As empresas pagam uma enormidade de impostos, mas temos de libertar a economia”.
Neste âmbito, destacou ainda a importância da imigração para que a restauração funcione, mas também para o PIB do país. “Nós temos muita imigração na restauração. E há uma coisa que é importante entendermos: a partir da Covid-19, o nosso PIB desenvolveu-se e só se consegue desenvolver com a imigração. Mas o que aconteceu, e que eu penso que não deve acontecer, é que não houve controlo absolutamente nenhum e depois nós, enquanto país, não conseguimos dar condições nem integrar as pessoas e isso começou a interferir na vida direta dos portugueses. Portanto, nós temos que conseguir arranjar a estrutura porque os imigrantes são muito importantes para o país”, garantiu.
“Basicamente, o que tens de pedir aos colaboradores é a simpatia e o sorriso. Apesar dos erros que possam existir, se a pessoa for simpática e sorridente, isso vai sempre resolver o tema. As pessoas fazem esforços para irem a restaurantes e têm de ser tratadas de uma forma que as faça querer voltar e que sintam que o seu dinheiro é valorizado. O que eu lhes digo é para tratarem as pessoas da forma como gostam de ser tratados quando vão aos restaurantes. Se eles fizerem este exercício, seguramente vão fazer o melhor trabalho”, continuou.
Quando questionado sobre o futuro do grupo Fullest, Gonçalo Fernandes não hesitou em responder que pretende continuar a fazê-lo crescer, não só com restaurantes, mas também com imobiliário: “A visão clara que eu tenho para a empresa é usar os restaurantes como recursos financeiros para comprar cada vez mais imóveis e mais rentabilização. Estou a pensar em cada vez mais ter, a longo prazo, rendimentos onde não é necessário este esforço diário de trabalho. Portanto, cada vez mais pôr a empresa a andar sozinha”.
Para esse futuro funcionar, a aposta, garante, passa por dar muito de si ao negócio e, principalmente, à equipa. “Se tu estás disposto a entregar uma energia muito grande à empresa, se tens uma visão clara do que pretendes, e se consegues trazer para as tuas equipas gente de mais valor, essas pessoas têm de ser valorizadas. Se todos os colaboradores forem valorizados, as coisas têm tendência a correr bem“, concluiu.
Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan e dos Vinhos de Setúbal.
Assista ao episódio completo aqui:
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Gonçalo Fernandes: “Se eu quiser aumentar os ordenados, pago 50% de taxa”
{{ noCommentsLabel }}