Santarém pode substituir a Portela? A nova discórdia sobre o aeroporto
Novo ofício das Forças Armadas confirma conflito de tráfego aéreo de Santarém com base área de Monte Real, limitando a expansão do aeroporto da cidade ribatejana.
A versão final do relatório da Avaliação Ambiental Estratégica sobre o novo aeroporto reabilita Santarém como solução, mas a discórdia entre a Comissão Técnica Independente (CTI) e os promotores mantém-se a propósito da possibilidade de a infraestrutura na cidade ribatejana escalar para um hub intercontinental.
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Depois de ter sido considerada uma opção inviável na versão preliminar do relatório, devido às restrições ao tráfego aéreo provocadas pela proximidade à base aérea de Monte Real, Santarém volta a ser hipótese.
“Santarém pode ser uma opção como aeroporto complementar ao Humberto Delgado. Teria a vantagem de permitir ultrapassar no curto prazo as condicionantes criadas pelo contrato de concessão, tendo ainda como vantagem um financiamento privado”, aponta o documento. Isto porque é a única localização que fica fora do raio de 75 quilómetros em que a ANA tem direito de preferência sobre uma nova infraestrutura.
Uma decisão bem acolhida pelos promotores do projeto, mas que não sana a discórdia, uma vez que a Magellan 500 defende que Santarém tem condições para ser um grande hub intercontinental e não apenas um aeroporto complementar.
“É um reconhecimento da qualidade global do projeto do aeroporto de Santarém. Entendemos que o projeto não tem apenas capacidade para ser um aeroporto complementar, o que ficou demonstrado pelo trabalho feito ao longo de diversas reuniões técnicas de topo com a NAV em dezembro e janeiro, que culminaram num conjunto de soluções de navegação aérea que demonstram que o projeto é escalável para um grande hub aeroportuário“, afirma ao ECO o porta-voz da Magellan 500, Carlos Brazão.
O presidente da Câmara Municipal de Santarém, Ricardo Gonçalves, também defende o projeto. “Houve um grande trabalho que os promotores de Santarém fizeram com a NAV, e onde foram discutidas estas matérias, e chegou-se à conclusão que podia ser um hub internacional“, afirmou em declarações à RTP3.
Fonte oficial da NAV confirma “contactos informais com os promotores do referido projeto”. “De qualquer forma, e independentemente destes contactos, reitera-se que qualquer alteração de pressupostos requer novos estudos e análises a serem solicitadas pela CTI”, afirma ainda.
A opinião expressa no relatório final da Comissão Técnica Independente (CTI) é de que existem “limitações aeronáuticas militares” que impossibilitam que Santarém possa operar como aeroporto único substituindo o Humberto Delgado. Uma visão reforçada esta terça-feira pela coordenadora-geral, que, em entrevista à RTP3, apontou a existência de um ofício do Estado Maior das Forças Armadas (EMFA) que “confirma a impossibilidade de cedência de espaço aéreo em Monte Real”.
O ofício assinado sobre o chefe de gabinete do EMFA e que consta do relatório final conclui que, “apesar das alterações introduzidas pelos promotores da opção Santarém às configurações previstas (…), verifica-se que, no que concerne à utilização do espaço aéreo, os procedimentos previstos para o projeto do aeroporto em Santarém colidem com a inviolabilidade do espaço aéreo de Monte Real, com impacto direto na sua estrutura de espaço aéreo e, consequentemente, na operacionalidade da Base Aérea n.º 5, sendo incompatíveis com a prontidão exigida para a missão atribuída e com a resposta cabal aos compromissos internacionais assumidos por Portugal no âmbito das alianças e parcerias internacionais que integra”, nomeadamente a NATO.
Acrescenta ainda que o projeto em Santarém “tem impacto igualmente em infraestruturas do Exército, nomeadamente na área de Tancos e em Santa Margarida, as quais são essenciais ao aprontamento do Corpo de Tropas Aerotransportadas e da Brigada Mecanizada”.
Na resposta à CTI, a NAV também aponta que o ofício do EMFA “clarifica a indisponibilidade para a cedência das áreas militares do bloco de Monte Real”. “A indicação que recebemos da NAV é que face às limitações do espaço aéreo, [Santarém] não pode ter movimentos superiores ao Humberto Delgado, que são 38 por hora“, afirma Rosário Partidário. Daí que, para a Comissão, Santarém não pode evoluir para hub internacional.
“Há limitações em Santarém. Os próprios promotores não estavam à espera delas. O aeroporto poderá existir, mas com uma utilização muito reduzida e não como a alternativa que Portugal necessita”, aponta também Carlos Mineiros Aires, presidente da Comissão de Acompanhamento da Avaliação Ambiental Estratégica, citando a carta do EMFA. “Não ver ser possível fazer ali um aeroporto com duas pistas, a menos que a base aérea de Monte Real saísse de lá”.
“Afinámos as soluções de tráfego, e Santarém já só impacta muito parcialmente duas áreas de espaço aéreo”, contrapõe Carlos Brazão, acrescentando que a opção pelo Campo de Tiro de Alcochete conflitua com cinco áreas e Vendas Novas com seis.
“Estamos empenhados em trabalhar com a NAV e a Força Aérea em melhorar as soluções para que afetem ainda menos as áreas militares que são importantes e críticas para o país”, assegura o porta-voz da Magellan 500. “Estamos de volta à corrida e com mais força que nunca.”
O relatório final da CTI foi entregue ao Governo esta segunda-feira. “O próximo Governo quando entrar em funções está em condições de decidir”, afirmou esta terça-feira o ainda primeiro-ministro. “Vai decidir com certeza bem. Qualquer decisão é uma boa decisão, tendo em conta o atraso que temos mas porque esta decisão vai beneficiar de uma boa base técnica”, acrescentou António Costa.
(noticia atualizada às 18h20 com esclarecimento da NAV sobre reuniões com a Magellan 500)
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